Era tarde da noite quando senti novamente que ela se aproximava. Coberto na cama, eu fiquei com os olhos atentos para identificar como se manifestava a ruína das minhas horas. Sabia apenas que era assustadora e que não fazia barulho quando se aproximava, contrariando as figuras monstruosas da minha antiga coleção de filmes. Era no silêncio que se fazia presente. Outra vez, fiquei na espreita aguardando ela aparecer. Não veio. Nunca vem quando a gente espera por ela. Já tinha ouvido relatos dos meus amigos que recebia visitas frequentes. Ela era assustadora e não sabia mais que isso.
Naquele dia, embaixo do edredom, eu estava pronto pra conhecê-la, capturá-la. Fingia que dormia pra ela não desconfiar que era aguardada. Ao sentir um vento frio, tive a certeza que tinha entrado no quarto pela pequena janela no alto da parede.
Me comportei como deveria, esperei que ela chegasse. Senti medo. Um medo daqueles que nos faz perder a cabeça. De súbito, pulei da cama aos gritos e tentei agarrá-la. Foi um combate desleal. Não enxergava muito bem, estava escuro e sentia que a cada golpe a adrenalina jorrava dos vasos e artérias. Pensei em acender a luz para ficarmos face a face, mas já o tinham feito. Vi que estava sozinho, não fossem as pessoas que entraram no quarto atônitas para saber o que havia ocorrido. Não me perguntaram nada, como se já soubessem o que fazer. Fiquei mudo de repente. Explicar que ela estava ali não iria adiantar muito. Eles não me dão ouvidos.
Paredes brancas. Sonhos em branco. Era tudo o que eu pude ver em silêncio, como costumava ser, quando me puseram, à força, deitado no chão. Pela janela no alto da parede, pude olhar o céu que se mostrava cada vez mais embaçado. Senti sono. Li na iminência de fechar os olhos letras grandes numa prancheta aos pés da cama, dizia “demência esquizofrênica”. Sabia que estava ali. Nome e sobrenome, bem na minha frente. Ela sempre se esconde em mim quando não estamos sozinhos.
Mulher, ruim com elas, pior sem elas. A mulher deve ser a lei de Murphy incorporada no ser humano, porque quando você acha que fez tudo certo, ela acha que você fez tudo errado. Que homem consegue entender uma mulher? Quantas vezes eu já tentei decifrar códigos, jogos e brincadeiras feitas por alguma mulher e não era nada daquilo que eu pensava? Era exatamente o contrário. E quando você acha que captou a essência do negócio, ela nos surpreende com outra interpretação. É a lógica do inverso do contrário.
Eu falo isso porque eu sou um estudioso da alma feminina. Sério. Passei anos da minha vida tentando decifrar a cabeça da mulher, uma epopéia do pensamento da fêmea. Depois de tantos anos de pesquisa, a única coisa que posso confirmar é isso: todas as possibilidades são possíveis. Em outras palavras: não tive conclusão nenhuma.
O homem é um ser simples, a mulher não entende porque não quer. Você está afim de um cara e ele parece nem aí pra você? Na cabeça da mulher passa a idéia idiota que é só um joguinho dele. Ledo engano, minha cara. Homem não faz joguinho. Joguinho é coisa de mulher. Homem quando quer, ele vai demonstrar que quer. Ele não fica de desdém. Homem não aguenta, é o instinto dele. Ele nasceu pra isso. Mas, no fim das contas, o homem que não lhe dava bola ficou com você? Parabéns, agora você está prestes a descobrir o que eu disse. Depois de uns dias ele cansa, abusa ou arruma uma viagem pra maior micareta do mundo com os amigos. Entendeu o recado?
Entretanto, o cara que não lhe dava bola ficou com você e agora vocês estão namorando. Acredite em mim, ele está por falta de opção, ou por cansaço da vida de solteiro, ou por sexo, ou por todas as alternativas anteriores. Se tem uma coisa que passa pela cabeça de um homem (lembre que, neste caso, ele não lhe deu bola no começo), é que ele poderia estar com alguém melhor, mais legal e mais bonita (a não ser que você seja a Scarlett Johansson, mas essa já tem dono). Aí vocês se casam. Burrice sua, minha filha! Você vai ter aquela família sem graça que a gente vê por todo canto e não aquela família dos filmes da Disney.
Ai você me pergunta: mas se o cara for tímido e não agir? Ai é outra história, você tem que analisar cada detalhe. O tímido é o pior homem para você entender. Porque você não pode analisar atitudes (já que ele não terá nenhuma), então procure por gestos ou alguma coisa que demonstre que ele está nervoso. Perna balançando, morder os lábios, risos sem sentido, medo de tocar você. Essas coisas entregam o tímido na hora. E isso quer dizer que ele lhe quer. Muito! Não fará nada, porque a paixão, enquanto ainda está só na cabeça do cara, dá bem mais certo.
Mas mulher não dá moral pra tímido, né!? Ai ela vai ficar com um chicleteiro da vida. E se tem uma coisa que eu aprendi com a experiência é que você descobre o caráter da pessoa pela música que ela ouve em casa. Se você entra no MSN e lá está o amor da sua vida com o Nick – ouvindo Chiclete Banana. Pule fora! Delete essa pessoa da sua vida. Ela não lhe fará bem. Um cara que ouve axé em casa, não pode ser uma boa pessoa. No momento mais particular da vida dele e ele ouve músicas que incitam a pegação, não pode ser um homem sério. Quer dizer que nem na solidão do seu quarto ele consegue esquecer seu instinto micareteiro. Isso é triste. E não só na vida amorosa, na vida profissional também. Os melhores executivos de quem eu já ouvi falar, nenhum deles ao comentar sua banda favorita disse: “Sou chicleteiro”. Portanto, fator chave para um executivo de sucesso: não ouvir Chiclete com Banana. Vá pro show se gostar, mas em casa é dose.
Toda essa aula sobre a alma masculina foi só para fazer um pedido de coração: mulheres, sejam mais simples. Quando derem algum sinal, que isso seja algo significante e nada muito obscuro ou duvidoso. Me ajudem, eu não tenho tempo de estudar pra faculdade, quanto mais estudar vocês. Então, sejam mais constantes. Usem um pouco de lógica nas suas atitudes. Esse é um pedido meu e de toda classe masculina. Beijo e meu telefone é 87…..
Obs: Se alguém se sentiu ofendido com alguma coisa que eu disse, me perdoe. Sou apenas um cara estranho, que não pega ninguém e não entende nada de mulher. Galera chicleteira, fica triste não, mas “não vou chorar, nem vou me arrepender…”
Bento XVI pode não ser um astro do mundo do rock, mas com certeza tem mais devotos que qualquer um deles. Não é um santo, mas, dizem, é o único ser vivo que representa todos eles de uma só vez. Haja santidade pra isso tudo e, talvez por acreditar que seria muito peso nas costas de um só mortal, o bom velhinho andou cometendo alguns deslizes como se pretendesse mostrar ao mundo que também é filho de Deus e não o irmão mais novo Dele.
Porém há uma grande ressalva nessa história. Os deslizes cometidos pelo representante de Deus na terra não foi o de fumar um baseado escondido, nem o de limpar a suástica guardada no fundo do baú. Não foi soltar um assovio discreto ao ver um pôster da Angelina Jolie seminua, muito menos se divertir assistindo seu sósia em Star Wars. Seu pecadozinho, por assim dizer, ganhou as primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro, acusando-o de tentar esconder, embaixo do tapete de sua Santa Casa, escândalos de pedofilia de vários padres Roma afora.
Essa história já é bem velhinha, desde o tempo em que Joseph Ratzinger ainda nem era pop, nem Papa. O mais aterrador dos casos encobertos foi um padre americano acusado de abuso sexual cometido contra mais de 200 crianças surdas-mudas de uma escola especial do pacato condado de Milwaukee. A BBC produziu um documentário bem legal sobre o assunto – Sexo, Crime e o Vaticano (Sex, Crimes and the Vatican, 2006) – que rendeu excomunhão a torto e a direito, como quem atira uma metralhadora. Toda equipe que o produziu não terá mais um lugarzinho no céu, desde os diretores aos faxineiros dos estúdios de filmagem. O documentário mostra “contratos secretos” do Vaticano entre as vítimas molestadas e os padres envolvidos, exigindo sigilo total dos fatos, sob pena de ter a metralhadora, agora alemã, acionada.
Hoje, com mais uma série de escândalos revelados por incentivos de ONGs que combatem a pedofilia e o desvio de comportamentos dos clérigos, a Igreja é pressionada por toda a sociedade civil. O Vaticano contra ataca acusando de blasfêmia aqueles que questionam a doutrina da Santa Igreja e o embate não tem mais fim. Me pergunto, se o Papa é o padre dos padres, com quem irá confessar seus pecados na sacristia?
O fato é que o renascentismo ainda não teve fim e, pra desespero do catolicismo, persiste até hoje e com mais força. A sociedade já colocou definitivamente a igreja em terceiro ou quarto plano, e tudo indica que o império dos Papas, exercido até o fim da Idade Média, nunca mais tornará a ocorrer, pela graça divina. Enquanto isso, crianças, pensem bem antes de se confessarem, pode ter um velhinho mal intencionado vendendo um lugarzinho no céu em troca de uma benção prazerosa. Santa Criminalidade…
Seu nome era Johnny, Rex, Tobi ou Totó, isso dependia sempre de como os meninos da rua o chamavam pra um carinho que ele logo abaixava as orelhas ou deitava com a barriga pra cima. Ele gostava mais de Johnny, dizia que era engraçado um cachorro com nome de gente. Sua vida não era tão diferente dos demais cães de rua, porque quando se é um deles não se tem muita escolha. A não ser pelo humor carrancudo que ele não tinha e que os outros transeuntes da sua espécie faziam questão de demonstrar, talvez por medo da carrocinha – da qual Johnny só tinha ouvido histórias – ou por não serem cães domésticos e não poderem passear com seus donos no domingo pela manhã.
Revirar o lixo era o seu maior prazer, principalmente quando encontrava alguns quitutes saborosos que ele carregava consigo com pena de comer rápido. Era um grande conhecedor do esforço para reencontrar algo que prestasse em meio a tantos ratos do depósito de lixo. Johnny odiava ratos, mas era bem verdade que gostava do lixo, mesmo sem nunca ter admitido isso.
Numa de suas visitas ao depósito, achou um óculos de natação Speedo®, que logo se incorporou ao seu visual despojado. O new look fez render muitas risadas das pessoas que o via passar e um enorme charme, à la Rin-Tin-Tin, frente às cadelas assanhadas pelo cão metrossexual. Aparecem várias cadelas quando se é um cão que usa óculos escuros.
Tomava banho na fonte da praça sempre que ia encontrar com a Lulu, uma poodle encardida que tinha olhos de azeitonas dos quais Johnny gostava muito, mas não queria firmar compromissos mais sérios. Iam passear pelo parque e filar umas sobras dos casquinhos de sorvete. Ao entardecer, assistiam ao pôr-do-sol no gramado da praia, deitados um sobre o outro.
Johnny era um cachorro feliz. Não tinha muitas preocupações e as coisas poucas eram o bastante para o coração de Labrador que ele dizia ter, mesmo sendo um vira-lata. Era um “cara legal” como costumavam dizer até bem pouco antes de ser pego pela carrocinha numa armadilha boba. Ele achou que era o sorveteiro, oras! Como ia adivinhar?
Johnny virou uma lenda no bairro. Conta-se até que antes de virar sabão fez o maior sucesso com a cachorrada, no canil onde ficou, por conta dos óculos escuros que depois de tanto rodar por aí voltou pra perto dos ratos que ele sempre odiou. Pelo menos estava no lixo, a casa de Johnny, envolto a um simbolismo incomparável que tomou conta de todos os cães que ali passavam e viam o que por muito tempo permaneceu sobre os olhos daquele pequeno grande cão.
Nas últimas semanas temos presenciado uma verdadeira batalha de interesses entre dois gigantes. O Google, maior empresa pontocom do planeta e a China, país mais populoso e maior mercado exportador do mundo.
Muita especulação tem surgido em torno desse tema e por conta justamente desta falta de coerência entre os diversos fatos, tenho adiado uma análise sobre o tema. A verdade é que ainda existem diversas informações desencontradas e a razão dessa guerra é de certa forma obscura.
Para quem ainda não está a par da situação, o Google fechou parte de suas operações na China e suspendeu a censura dos resultados das buscas de seu site chinês no final do mês passado como forma de retaliação após anunciar ter sofrido um ataque de hackers em contas do gmail pertencentes a diversos ativistas de direitos humanos chineses. O governo americano participou das investigações que apontaram duas escolas chinesas como fontes do ataque, atribuído pelo Google ao governo chinês. As autoridades de Pequim negam as acusações. Os pedidos de busca originados da China foram então encaminhados a servidores instalados em Hong Kong, e têm sofrido censura intermitente por parte de Pequim, segundo a companhia.
Mas na realidade quando o governo chinês filtra as buscas do Google para identificar opositores ao regime e proibir a divulgação de notícias que lhes pareçam nocivas, faz isso dentro da lei. A constituição chinesa assegura ao cidadão liberdade de expressão, de imprensa e de manifestações públicas. Mas condiciona esta liberdade ao respeito dos interesses do estado, da sociedade e da coletividade. É uma censura constitucional.
Lendo um texto de Brian Lam (editor-chefe do Gizmodo americano), vi um pouco do outro lado da coisa, embora não concorde totalmente com ele. Brian nasceu nos EUA, mas sua família é de Hong Kong. Ele carregou consigo a influência sofrida por sua família com a invasão britânica de sua região, que antes pertencia à China.
Para Brian o Google desafia a cultura e o poder da China ao tentar impor a este país seus valores ocidentais. Segundo ele, a diferença da censura no mundo ocidental e na China é que nossas preocupações são as de uma sociedade capitalista. Como exemplo, cita, está a censura de conteúdo protegido por direitos autorais, onde sites são tirados do ar e vídeos são apagados do YouTube por compartilharem conteúdo protegido por essas leis que, segundo ele, é para proteger o lucro das empresas que produzem este material. A pirataria nestes casos é combatida por violar a lei nestes países (Brasil e EUA, por exemplo) da mesma forma que desrespeitar a censura é violação da lei na China.
Alice abriu os olhos com preguiça e permaneceu na cama por mais alguns instantes, até ver entrar no quarto feixes de um sol anormalmente mais claro pro início daquele Maio cinzento. Afastou a cortina e observou no céu, ainda com sono, nuvens dispersas das quais não identificou nenhuma figura, como de costume. Voltou pra cama, mas levantou logo em seguida sabendo da falta de afazeres que tinha de cumprir naquele dia. Era cedo e a sua agenda já gritava, alertando sobre os tantos não-compromissos e desapertos de mãos. A água quente do banho trouxe um pouco de conforto comedido e alheio aos ensaios e planos que tinha de seguir para as reuniões de negócios inexistentes e o almoço com o namorado que ela não tinha.
Nos últimos tempos tinha sido assim, seguir fingindo era mais uma das formas que Alice havia encontrado de fazer o que queria e com quem quisesse, sem precisar de suas crises emotivas para equilibrar o jogo de forças desiguais. Uma semana antes tinha jantado à luz de velas com Woody Allen e ido pra cama com Keanu Reeves, o primeiro era mais pra discutir literatura e exposições emotivas, o segundo, pela sacanagem mesmo, porque ninguém é de ferro e é chato ser inteligente sempre. Andava cansada dos pequenos casos com estradas limitadas, cansada de sempre esperar ligações no outro dia. O telefone vermelho que tinha sido instalado pra receber ligações dos possíveis pais de seu rebento, nunca havia tocado. Nem a empresa de telefonia tinha dado o ar da graça em ligações. Ela, mais uma vez, fingia não esperar telefonema algum e a angústia que a corroia por dentro só era menos forte que o anseio de dar um basta na vida uno que levava, e que se acentuava quando pedia, no cinema, a promoção do “kit solitário”, como apelidou uma pipoca pequena acompanhada de um copo de refrigerante. Também fingia ficar alheia aos casais e seus “kits duplos”. Pra que tanta pipoca, meu Deus – interrogava-se.
Naqueles dias ela estava, anormalmente, se sentido muito solitária. Queria alguém pra compartilhar suas crenças e crises. Deixar de lado a fama de “mulher moderna” que haviam feito ao seu respeito por gostar do Bauhaus e detestar saias. Coisas pequenas ganhavam magnitudes faraônicas e o mais disperso olhar traduzia-se em expectativas dissonantes. Tinha escolhido ser assim por levar com muita frieza e disciplina o fato de ser filha de um operário machista, meio marxista também.
Sua vida era retrato de suas escolhas sempre bem mensuradas. Sempre tão racional… Sentia-se confortável apesar. Há quem diga que aquilo não era bem verdade. O que se sabe é que naquela noite ela foi ao cinema, mais uma vez sozinha, pediu um ‘kit duplo’, mesmo sabendo não ser capaz de comer tanto. Quando saiu do filme caminhou devagar pelas ruas iluminadas por postes velhos e uns semáforos preguiçosos, jogou pipocas pro céu e transformou-as em neve caindo em um país distante. Da porta de sua casa, pôde ouvir um barulho estranho vindo de dentro. Nunca tinha escutado aquilo antes. Abriu a porta devagar e com passos cansados foi se aproximando da mobília de cedro da pequena sala de estar.
- Alô… Oi Woody, tinha certeza que era você!… Claro, claro, amanhã às 20h está ótimo. Não vejo a hora…
Estranho, aquele telefone tinha um som engraçado igual ao seu sorriso inibido. Teve a impressão de um déjà vu olhando as pipocas caírem do céu que ela mesma havia pintado. Permaneceu ali, com o telefone desligado ainda no ouvido, fazendo planos de passear com o seu cachorro, fiel amigo, na manhã seguinte.
Já não havia mais o que fazer. Era isso. Ponto. De repente, chegara a esta fatídica e confusa conclusão. Suas idéias cansaram de procurar as respostas que o coração exigia e pararam. Nos últimos tempos havia sido assim. Sabia a situação em que se encontrava, aparentemente cômoda aos olhos mais desatentos, mas tão dolorosa aos que viam através dos seus. Estava prestes a ruir. E, sem maiores cerimônias, ele chegou: o silêncio entre os dois. O silêncio ensurdecedor de palavras subentendidas, de atitudes pensadas e repensadas que agora eram tomadas. Ele calou, ela chorou. Jamais poderia supor a falta que ele lhe fazia. Mas ela sabia que seria assim. Sabia que sua dúvida era muito pesada e que, mesmo que ele a suportasse, ela lhe rasgava o peito e lhe deixava um buraco no coração, aberto para outros amores. Amores que tinham certezas a oferecer. Amores que se permitiam amar, mas que, principalmente, permitiam-se ser amados. Ela pensou que talvez este tivesse sido seu erro. A não-entrega, a balança… a maldita balança onde ela sempre pesava suas indecisões. Ele sempre ali, fazendo-se tão presente que ela, mesmo tão longe, quase podia tocá-lo. Ela, mesmo querendo e precisando da presença dele, fazia-se mais distante do que ele podia alcançar. E quando ele achava que poderia tocá-la, sempre faltava um pouco mais. Ela também sentia medo. Medo da confiança, medo da decepção, medo até de se supor merecedora de tanta felicidade. Medo de pisar em falso e ter que chorar. Preferiu se proteger. Ele não conseguiu entender. Ela o queria, ele a amava.
E de tantos desencontros, a vida tratou de agir. Ela sabia que não mais o teria. Ele cansou de chamar e seguiu. Ela, como sempre fizera, continuou a procurá-lo em outros sorrisos, em outros corpos, fechando os olhos e imaginando que era ele para, assim, conseguir saciar um pouco o desejo, a falta do que não viveu. Ele não, refez-se, deu para outra um amor que era dela. E aquela distância entre eles, que antes foi trampolim, tornou-se barreira indispensável para se colocar a culpa dos não-atos. Mas eles sabiam. E com o silêncio veio um certo ressentimento, uma certa falta de tudo o que não existiu.
Ele, que lhe trouxera tantas vezes o sol na madrugada, agora eclipsava seus dias.
Ela, que antes fora sua meta, seu objetivo, era agora parte da estrada.
E a balança dela finalmente pesou para um lado só.
É comum cada geração ter uma banda ou cantor que a represente. A geração da Bossa Nova, Jovem Guarda, Tropicália, Mangue Beat. Cada uma delas tinha seu representante.
Lá pelo distante ano de 1999, uma música era cantada pelos quatro cantos do país: Anna Júlia, uma canção despretensiosa, criada pela banda carioca Los Hermanos. Mas ninguém poderia prever os caminhos que Anna Júlia abriria.
Começando pela própria Anna Júlia, que se tornou o maior sucesso da banda até hoje. Se não me engano, o maior sucesso daquele ano. Era tocada por pagodeiros, sertanejos e axézeiros. É triste, mas é pra você sentir o tamanho do sucesso que foi a música. Eu mesmo cantei uma versão péssima numa festa do colégio, com direito a guitarra, triângulo e reco-reco. Não me pergunte como esses instrumentos podem combinar. Como era de se esperar, saí vaiado. E logo depois foi gravada pelo genial beatle George Harrison. Quantas bandas podem ter esse privilégio? Eles foram copiados pelos piores (eu me incluo) e pelos melhores.
Porém não seria Anna Júlia que determinaria o fenômeno que Los Hermanos se tornou. Após o primeiro disco com uma pegada mais hardcore, a banda nos entrega o Bloco do Eu Sozinho. Álbum genial, com maior influência do samba, inclusive nos metais, que pode ter afastado alguns primeiros fãs do hit-chiclete Anna Júlia, mas criou uma coisa incomum, até então, com outras bandas no Brasil. Um público fiel, que se tornaria o novo integrante da banda, participando de cada música como se fosse a última. Você não precisa nem gostar de Los Hermanos, mas é impossível não se emocionar com a devoção que os fãs do grupo demonstravam em seus shows. Marcelo Camelo praticamente destruía sua voz para conseguir cantar mais alto que o público. Assista a qualquer DVD ao vivo deles e você terá noção do que eu estou falando.
Sucesso de crítica, o disco não teve o mesmo sucesso de vendas do seu predecessor, mas se tornou um marco para todos que gostavam dos LH. Juntos com seus fãs, Los Hermanos tinha amadurecido sua música e isso é que faz uma banda marcar uma geração.
Em 2003, já tinha mudado completamente a forma com que era visto pelo público. Eles lançam Ventura (pra mim o melhor álbum deles) e consolidam seu nome no cenário nacional. Eu lembro que quando comprei o cd de Ventura quase não podia falar que gostava de LH. Cercado de pessoas que ouviam hits do rádio. Depois do colégio dedicava alguma hora do dia para escutar Ventura. Cada música significava alguma coisa pra mim.
Se eu não me engano, ainda em 2003, eles fizeram uma apresentação histórica no Abril Pro Rock, confirmando Recife um dos públicos preferidos pela banda. Passei a freqüentar os shows de LH sozinho. E era maravilhoso. Descarregava todas aquelas músicas como quem dava um grito de guerra. Guerra contra aquela mesmice em que estava a música brasileira, guerra contra a imposição das rádios, guerra contra eu mesmo, meus medos e aflições.
No lançamento do seu último trabalho, 4, eu já não acompanhava todos os shows em Recife. Uma relação afetiva relativamente atribulada, pra não dizer outra coisa, acabou impedindo a minha despedida da banda. Mas continuava a ouvir as músicas em casa, explorando todos aqueles sentimentos inerentes aos anos pré-maturidade.
Sei que LH não teve o mesmo significado para todos da minha idade. Mas os que compartilham comigo este sentimento, sabem do que estou falando. É inevitável perceber a influência que o Los Hermanos trouxe pra MPB que é produzida hoje. O gosto musical que tenho devo muito a eles. Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba, quatro nomes que marcaram minha geração. E eu sou da geração Los Hermanos!
Como já havia sido indicado através do twitter em meados de outubro do ano passado, foi confirmado essa semana pelo publicitário Eduardo Fischer que uma nova edição do Festival de Woodstock será realizada em São Paulo, mais precisamente na Fazenda Maeda no município de Itu durante os dias 7, 8 e 9 de outubro. Sob o subterfúgio de evocar o tema “sustentabilidade”, o histórico festival norte-americano aterrissará em terras brasileiras com grandes pretensões.
A realidade é que acho isso absolutamente ridículo. Exatamente, ridículo. Não o fato de se trazer ao Brasil artistas aclamados como Bob Dylan, Pearl Jam, Foo Fighters, Linkin Park (estas são as primeiras especulações), mas apenas por se criar um festival completamente novo e, por pura questão de marketing, tentar associá-lo ao lendário Festival dos 3 Dias de Paz, Amor e Música.
O Woodstock original foi único, expressivo, um grito da contracultura americana pela não-violência, pelo fim da guerra do Vietnã, pelo amor, pela paz. Grandiosidade comparada apenas a seu fiasco organizacional e também ao único elemento que realmente funcionou muito melhor do que o esperado: a música.
Realmente não entendo a iniciativa de se querer recriar um evento que jamais será superado em sua essência. O Woodstock foi emblemático justamente por sua posição histórica, pelos ícones que manifestaram sua arte da forma mais crua e verdadeira possível. Como recriar um encontro de Janis Joplin, Creedence Clearwater Revival, The Who, Johnny Winter, Santana, Greateful Dead, Joe Cocker, Jimi Hendrix, Neil Young (isto só pra citar alguns) em um único evento? É esta pretensão que acho ridícula. É mais ou menos a mesma idiotice que ocorre, por exemplo, no Rock in Rio Lisboa e Rock in Rio Madrid. Nonsense!
Apesar de tudo, espero de verdade que a iniciativa seja válida. Que, assim como o Woodstock 1969 abriu os olhos e ouvidos do mundo para ver e ouvir aquilo que queriam expressar, que o Estoque de Madeira 2010 também seja representativo em sua identidade. As proporções, porém, não são nem um pouco difíceis de mensurar.