Infinito em cor

Por Gerson Quirino em 25/11/2010 s 21:18

Antes tanto em preto e branco
Eram mais de mil meus sonhos tolos
Eram mais de cem os meus tormentos
Eram mais de dez os meus amores

Até de mim meio distante, reconheci o samba alheio
Amarelou a cor da noite, soou vida em todo meio

Na partida que o fim previu de nós
Só resta a estranha calma a sós

Confesso agora que, em cores,
São quase dez meus sonhos tolos
São os mesmos cem os meus tormentos
São mais de mil os meus amores

Os Noivos

Por MAIS QUE NADA em 24/11/2010 s 8:27

Nelson Rodrigues

Quando Salviano começou a namorar Edila, o pai o chamou:

— Senta, meu filho, senta. Vamos bater um papo.

Ele obedeceu:

— Pronto, papai.

O velho levantou-se. Andou de um lado para outro e senta de novo:

— Quero saber, de ti, o seguinte: esse teu namoro é coisa séria? Pra casar?

Vermelho, respondeu:

— Minhas intenções são boas.

O outro esfrega as mãos.

— Ótimo! Edila é uma moça direita, moça de família. E o que eu não quero para minha filha, não desejo para a filha dos outros. Agora, meu filho, vou te dar um conselho.

Salviano espera. Apesar de adulto, de homem-feito, considerava o pai uma espécie de Bíblia. O velho, que estava sentado, ergue-se; põe a mão no ombro do filho:

— O grande golpe de um namorado, sabe qual é? No duro? — E baixa a voz: — É não tocar na pequena, não tomar certas liberdades, percebeu?
Assombro de Salviano: “Mas, como? Liberdades, como?”.

E o pai:

— Por exemplo: o beijo! Se você beija sua namorada a torto e a direito, o que é que acontece? Você enjoa, meu filho. Batata: enjoa! E quando chega o casamento, nem a mulher oferece novidades para o homem, nem o homem para a mulher. A lua-de-mel vai-se por água abaixo. Compreende?

Abismado de tanta sabedoria, admitiu:

— Compreendi.


A SOMBRA PATERNA

Na tarde seguinte, quando se encontrou com a menina, tratou de resumir a conversa da véspera. Terminou, com um verdadeiro grito de alma:

— Muito bacana, o meu pai! Tu não achas?

Edila, também numa impressão profunda, conveio: “Acho”.

— Concordas?

Foi positiva:

— Concordo.

Pouco antes de se despedir, Salviano batia no peito:

— Dizem que ninguém é infalível. Pois eu vou te dizer negócio: meu pai é infalível, percebeu? Infalível, no duro


O BEIJO

Nesse dia, coincidiu que a mãe de Edila também a doutrinasse sobre as possibilidades ameaçadoras de qualquer namoro. E insistiu, com muito empenho, sobre um ponto que considerava importantíssimo:

— Cuidado com o beijo na boca! O perigo é o beijo na boca!

A garota, espantada,protestou

— Ora, mamãe!

E a velha:

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O Inventário do Ir-remediável

Por MAIS QUE NADA em 18/11/2010 s 17:23

— É possível um rio secar completamente?
— Claro que é.
— Mas será que ele não enche depois? Nunca mais?
— Alguns sim, outros não.
— Mas nunca mais?
— Sei lá, acho que não.
— Você tem certeza?
— Certeza eu não tenho. Só estou dizendo que acho. Afinal não sou nenhuma especialista em matéria de rios, secos ou não.
— Sabe?
— O quê?
— Eu tinha esperança que o rio voltasse a encher um dia.

Caio Fernando Abreu

Luz dos Olhos

Por Gerson Quirino em 02/11/2010 s 0:37

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A gente mente pra tentar ser feliz
A gente sente que viver por um triz
É sempre a lente que aumenta o que há no fim

A gente espera que o sorriso venha bobo
A gente esquece que o caminho é meio torto
E que a escolha está em nosso alcance

Talvez o medo seja pior que o erro
Talvez esconder o que há por dentro
Seja o contrato que nos limita

A gente esconde o circo em nosso peito
Esconde o beijo sem defeito
Esconde as mãos que se procuram

De quanto vale ser feliz agora?
De quanta luz é feita nossa vela?
De quanto medo é feito teu sonho?
De quantos risos somos nós dois?

Ela. Eu.

E eu já nem sei mais…

Quando aparece a cor do velho…

Por Gerson Quirino em 20/10/2010 s 8:28

Ela vivia só no pequeno mundo recluso de suas crenças. O mundo que ela criara como retrato das meias-mentiras e quase-verdades que trazia consigo. O mundo que mais parecia um casulo de si mesma. Tinha um andar elegante, mas seus passos mostravam uma segurança que apenas ela sabia não existir. Sabia que aquilo era somente o que sonhava ser. Havia tentado muitas vezes, mas sua busca por medalhas e troféus tirava a luz daqueles olhos cheios de planos. Tentou amar alguns homens. Tentou beijá-los sentindo arrepios. Tentou chorar de saudade, mas as únicas lágrimas que vieram foram por pena de si mesma. Ela não era feliz e nem precisava da felicidade.

Certa de que amor não era o bastante, o encontrou andando por esses caminhos tortos. Ele a amou como pôde (como sempre), mas logo percebeu o caos maior que o céu que gritava dentro dela. Discutiram muito, choraram muito também. Ela, mesmo sabendo do peso de ser daquele jeito, focava sempre o primeiro lugar. Ele guardava a razão e fingia ser o derrotado.

Não há como mudar a índole humana. Em mais uma de tantas brigas, ele desacreditou no amor que se encolhia ao peito.

Desistiu.

Seria feliz, mas não ao lado dela.

Ele ficou pequeno, pela última vez, ao deixá-la subir no mais alto pódio que ela construiu.

Daquela vez não se despediu ao sair. Olhou-a pela última vez de baixo pra cima e a deixou novamente sozinha, como sempre fora. Envolta a tantas medalhas e dores.

Eram todas de ouro.

Invejas e Maravilhas

Por Gerson Quirino em 16/10/2010 s 21:01

Além de uma pequena lista de grandes ódios, que já escrevi aqui no blog, também tenho uma de grandes invejas. Como não daria pra expor o sentido de todas elas em um só post, prometo colocá-las aos cacos, fragmentadas, também como forma de mascarar a tortura que eu sentiria em vê-las completas, de uma só vez. Seria muito pra mim…

O texto abaixo, de Paulo Mendes Campos, é parte dessa pequena lista.
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Alice no País das Maravilhas – Em outros tempos

Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.

Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.

A realidade, Maria, é louca.

Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?”

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar – comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.

Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria têm de ser grave.

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosses eu?”

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou ?” É bobice Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.

Disse o ratinho: “Minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.

E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinicerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.

Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

No escuro do mundo

Por Gerson Quirino em 06/10/2010 s 19:00

E você procurou meus textos como quem procura na alma de alguém algo que explicasse sua dúvida. Ainda agora, longe o bastante pra deixar de pensar na questão, não consegue deitar a cabeça ao travesseiro com a mesma leveza de antes. O que está acontecendo, você se pergunta no escuro esperando que a resposta chegue num sonho qualquer. No intervalo que cessa mais um sorriso, você tenta esquecer o meu. Olha seu mundo e descobre que não somos apenas uma equação complexa. Substantivo composto, eu diria, já que te fiz caminhar por palavras que você nunca supôs. Teu continente é estrangeiro a mim, não me faço compreender no seu dialeto tão bem construído. Mas não é necessário, suponho. Nosso entendimento é implícito, secreto, silencioso. E eu já não sei como fugir de você, embora você já tenha feito isso. Você não merece a minha timidez, nem minhas palavras que nunca fizeram sentido. Eu não mereço o som da sua risada, nem os momentos felizes ao seu lado.

Não nos merecemos, pois. Somos a angústia de todos os dias que nos separam e o peso das horas que passamos próximos um do outro.

Mas você continua procurando meus textos e eu continuo sorrindo em silêncio, pra disfarçar o desespero de não termos sido mais. Não fomos mais. Você foi. Se foi de mim.

Entre outras mil…

Por Gerson Quirino em 24/09/2010 s 15:27

Ah, Brasil, você não é tão bom assim. Com essa barba por fazer num retrato envelhecido e essa roupa rasgada você não convence ninguém com sua história de progresso e ordem. Eu já estou tão cansado das suas histórias que sempre se repetem. Não queria te dizer, mas vou ser bem sincero, faça-me o favor de escutar.

Suas esmolas não tornam seu povo mais rico, pelo contrário, só mantém na miséria uma classe com cada vez menos perspectivas de ascensão. Suas praias lindas não compensam os morros favélicos espalhados por toda parte. Nem sua imensa beleza natural supre a falta de segurança, o descaso dos políticos e a escassez de alimentos do teu povo faminto. Essa fome, Brasil, não é só de comida, é de bebida, diversão e arte, como disse a música. Essa política do pão e circo já não agrada mais há tempos e você nem percebeu isso. O sistema está entrando em colapso de ignorância. Suas crianças não sabem escrever o próprio nome, nem ler a receita de um remédio que não podem comprar.

Sua ficha, que foi emporcalhada em 500 anos de história, nunca será limpa. Penso diferente do famoso dito que cada povo tem o governo que merece. O povo tem a ignorância imposta por tuas deficiências mais antigas, que exigiram que o caráter dessa massa se resumisse à alienação coletiva e histérica, criando um ciclo vicioso de falta de cidadania e eleição de corruptos. Qualquer propaganda de quinta com fundo musical apropriado fabrica milhares de devotos a figuras políticas bizarras, fazendo surgir, a todo instante, novos populistas, velhos conhecidos nessa estória democrática que mais parece uma fábula de mau gosto. Brasil, as conseqüências de atos torpes sempre se voltam contra quem os pratica. Viver e ver teu povo ridicularizando a figura dos teus próprios representantes é apenas a conseqüência inerente das tuas escolas sucateadas e sem professores, da tua educação falha e excludente, tuas tantas cotas de preconceitos e comercialização do ensino.

Por essa e tantas outras, que eu perderia muito tempo em te dizer, não me leve a mal, mas irei te deixar. Só quero sair antes que esse cruzeiro do sul despenque em cima de mim. A minoria sempre perde e admito não ter como contribuir em muita coisa por aqui. Diferente do que pensa, nessa atitude não há nenhuma covardia, há apenas um sentimento de incapacidade de conviver com suas leis fantásticas, que nada adiantam perante sua acefalia crônica.

“Brasil, ame-o ou deixe-o!” era teu lema há bem pouco. Que seja feita a tua vontade então. Só me resta agora sair sem fazer barulho e, talvez assim, não acordar em você a vergonha de se olhar no espelho e perceber essa barba mal feita, essa roupa rasgada…

Breve

Por Gerson Quirino em 23/09/2010 s 17:16

E o fim chegou breve, como chegavam ao fim os verões da minha infância.
Era um ponto final bem no meio das angústias que separavam mundos opostos e realidades confusas. Talvez como uma alternativa que viabilizasse a sobrevivência sem menores arranhões, o fim, dessa vez, trazia ataduras e mercúrio cromo. Deixou uma leve dor de cabeça e a certeza de que jamais beberia tanto como na noite anterior.

Já não dava pra compensar a falta de alguém com alguns litros de vodka.

Van Pelt

Por Gerson Quirino em 16/09/2010 s 17:28

Fora ela, havia mais umas três ou quatro. Na caixa de brinquedos da pequena Júlia, ela era a mais bonita, mas isso ainda não fazia dela uma Barbie. As demais bonecas de pano compartilhavam com ela a igualdade de suas essências, que tanto a incomodava. Lucy era diferente. Ela não era de pano, ela era bonita. Aquele quadrado escuro onde elas passavam a maior parte do tempo só ganhava um pouco de luz nos momentos em que Júlia chegava da escola e escolhia a sortuda, que a acompanhava durante todo o dia até que, à noite, voltasse pra lá.

Lucy era sempre a escolhida por ter imensos olhos verdes iguais aos de Júlia, além de ser a mais recente na casa. Ela cantava exuberância, falava às outras bonecas dos filmes que tinha visto na sala uma vez que fora esquecida em frente à TV, dizia ter lido todos os gibis, mesmo sem saber juntar duas letras. Falava sempre de teatro, beleza e música. Seu sonho era aparecer na TV, conseqüência da carreira cênica que tinha como inspiração.

Suas amigas de caixa desconfiavam que toda aquela pompa de boneca culta, inteligente e superior fosse apenas encenações com a intenção de negar a condição de sua natureza morta. Mas ela não se importava e sorria olhando os livros e deduzindo histórias pelas gravuras.

Numa sexta-feira qualquer, a família decidiu viajar. A mãe de Júlia ia pegá-la na saída da escola levando as malas prontas no carro e de lá partiriam aos Alpes. Apressada e na dúvida sobre qual levaria, a mãe de Júlia pegou todas as bonecas da caixa e colocou na mala do carro. Lucy não percebeu a movimentação porque havia sido esquecida por Júlia, na noite anterior, em baixo da mesa de jantar. Achou estranho o silêncio repentino que se fez, mas se tranqüilizou ao ter certeza que Júlia voltaria pra buscá-la quando percebesse o equívoco de sua mãe desatenta.

Não fosse a ponta de cigarro no lixeiro, não fosse o papel dentro dele, não fossem as coisas que sempre insistem em piorar, tudo ficaria bem até o retorno da família no domingo.

Naquela noite, Julia assistia televisão na casa dos Alpes quando pôde perceber um rosto conhecido. Sr. Tomaz, o vizinho, dava entrevista sobre o recente incêndio que acontecera no bairro. Mostrava que em meio aos destroços tinha salvo apenas os restos queimados de uma boneca.

Lucy, decepcionada, era filmada pela TV local. Só a metade dela, já que o fogo tinha consumido o resto. Os olhos não eram mais verdes e seu sorriso nem espelhava aquela inteligência que fingia ter. A melancolia do abandono havia batido com força nela. Não havia naquela filmagem de noticiário policial nenhuma beleza sob películas de cinema, apenas fumaça em rede nacional.

Ela que sempre acreditou nas mentiras que jurava, teve a vida e seus dentes afiados como prêmio.
Talvez por não ter tido sorte.
Talvez por ter esquecido que era apenas uma boneca de plástico.

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