Planeta dos Macacos (1968) – Franklin J. Schaffner

Por Gustavo Massud em 19/04/2011 s 13:53

Clássico de ficção científica é um estudo antropológico e político da relação entre os seres humanos.


A teoria da evolução é base primordial para se entender o filme de Franklin J. Schaffner. Darwin criou a teoria da evolução, onde afirma, entre outras coisas, que os homens e os macacos descendem de um mesmo ancestral e evoluíram para o que conhecemos hoje. Dada as circunstâncias, essa é a primeira premissa onde a narrativa de Planeta dos Macacos se sustenta: um lugar onde os primatas teriam evoluído tanto que deixaram o homo sapiens (nós, humanos) para trás, se estabelecendo como o elo mais forte da cadeia alimentar.

No entanto, muito além das questões evolutivas, Planeta dos Macacos trabalha como uma parábola sobre a sociedade global da época em que o filme foi lançado, podendo ser uma interpretação sobre o posicionamento dos EUA na Guerra Fria.

É sob este prisma que podemos potencializar a importância desta obra cinematográfica. Em 1968, os EUA já sofriam forte pressão popular pelo fim da Guerra no Vietnã. A diferença do poderio bélico dos norte-americanos contra a população vietnamita era absurda. Mesmo assim, os nativos se defendiam com o que podiam, mas o massacre era inevitável. A imposição do poder por meios bélicos é muito bem representada no filme.

George Taylor, personagem de Charlton Helston, é um astronauta que participa de uma missão para descobrir se uma viagem na velocidade luz faria o tempo passar mais lentamente para os tripulantes. Depois de hibernar durante 18 meses, os tripulantes da nave aterrissam em um planeta aparentemente inabitado e começam a buscar por alguma forma de vida.

No desenrolar do filme, descobre-se que neste planeta os humanos são escravizados por macacos que falam e se comunicam como um “humano terrestre”. Essa inversão de poder é de suma importância para o entendimento da visão com que era tratada a imponência dos EUA perante aos outros países.

Tal como os EUA, neste planeta, os macacos são poderosos, procuram manter o status quo e tudo que é diferente deles acaba sendo subjulgado. Esta pode ser considerada uma afirmação monocular, com apenas uma visão do todo. Mas é importante salientar que a interpretação é feita de acordo com a realidade da época, onde o domínio norte-americano passava a ser contestado fortemente.

Estabelecendo um paralelo com uma visão antropológica, temos a percepção de haver também uma exemplificação de como tratamos o que é considerado diferente. Seja por raça, credo, ou opção sexual. Existe uma tendência de aversão às diferenças. Diferenças essas que todos nós temos, umas mais perceptíveis e outras não. Tal pensamento acaba por padronizar um tipo de comportamento: a sociedade só aceita aquilo que, aos seus olhos, é considerado normal.

Depois de ser capturado pelos macacos, George Taylor passa a ser estudado pela psicóloga primata, Dra. Zira, que vê no homem alguma coisa peculiar, mas que ainda se mostra um mistério. Durante a captura, Taylor sofreu um ferimento na garganta que o impede de falar. Mesmo fazendo os movimentos com a boca para se fazer entender, os macacos interpretam aquilo apenas como uma imitação, exceto Dra. Zira e o seu noivo Dr. Cornelius.

O até então prisioneiro, Taylor, só consegue se impor quando finalmente toma posse de uma arma. A partir desse momento ele corre atrás de uma explicação para tudo aquilo que está presenciando, numa alusão clara ao fato da arma ser um objeto que lhe dá poder. Poder este que o seu próprio discurso não conseguiu lhe dar durante uma reunião com as autoridades símias.

Em tempo: anos depois o ator Charlton Helston foi duramente criticado por sua postura pró-armas (ele chegou a ser presidente da National Rifle Association – NRA), tendo sua imagem bastante questionada no filme Tiros em Columbine de Michael Moore.

O filme concretiza esse paradigma e traça eficientemente uma linha de pensamento em que não deixa fios soltos. A história mantém seu discurso até o fim, onde vemos claramente a posição política ao qual a obra está atrelada. As interpretações que podemos ter da obra não são ambíguas, todas apontam para um só caminho que tem uma conclusão surpreendente e genial.

Não só uma obra cinematográfica, mas também uma obra política e antropológica. Planeta dos Macacos transcende a sétima arte e é questionador ao indagar o espectador de maneira direta. Será que evoluímos tanto para chegarmos a um fim tão primitivo? Ou ainda, será mesmo que evoluímos?

Um rapaz latino-americano

Por Gerson Quirino em 15/04/2011 s 17:26

É difícil falar o que nem todos compreendem bem. O que nem todos estão dispostos a perceber através do som metalizado de um violão de repentistas no meio de uma feira livre da cidade de Sobral, no Ceará. A força do canto poético daquele menino perdia o brilho ao se misturar aos gritos dos vendedores ofertando os melhores preços. Ele havia percebido que não adiantava cantar mais alto, nem falar de coisas do coração pra pessoas apressadas e preocupadas demais com a rotina da feira. Talvez tenha sido essa insistência que tenha dado origem no que eu considero como uma das maiores injustiças cometida contra um músico no Brasil.

Belchior abandou a feira e foi trabalhar como radialista. Aprendeu como funcionava a dinâmica da música até sair no radinho de pilha das casas de toda a cidade. Foi estudar medicina na capital, mas abandonou o curso faltando apenas dois anos pro término e se dedicou à música que ele sempre quis.

Pouca gente da minha geração conhece a música de Belchior. Por sorte, eu tive grande influência da música brasileira por intermédio dos meus pais. Tive contato com suas músicas ainda cedo e nunca pude compreender o sentimentalismo existente nelas. Esses dias, porém, revirando antigos discos, reencontrei empoeirado um exemplar de Auto-Retrato, que é uma compilação de suas melhores músicas. Escutei sem pretensões e me surpreendi com a profundidade das mesmas músicas que eu escutava quando criança. À palo Seco, Paralelas, Como Nossos Pais e Galos, Noites e Quintais são minhas preferidas. Não é difícil identificar nelas o sofrimento de alguém que cansou de compreender o mundo a sua volta e não ser compreendido por ele.

Escute:

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Suas músicas quase sempre retratam medo, tristeza e insatisfação. Foi crítico ferrenho da ditadura, era amante incondicional do Brasil e da América do Sul, o que o torna  símbolo de universitários que ainda procuram revoluções nos dias de hoje. Produziu um som de vanguarda e tornou-se o primeiro grande cantor nordestino da MPB. Foi referência pra inúmeros cantores e bandas que mudaram o curso da música no Brasil.

No entanto, Belchior teve um sucesso razoável e nunca foi valorizado como realmente deveria ter sido. Percebeu isso com o mesmo olhar do menino que cantava na feira de Sobral, sofreu grandes depressões por isso. Vagou sem rumo jogando fora poesias em pequenos bares do interior de São Paulo, onde vive.

Até que um dia, se deu conta de que o Brasil não é mais o mesmo. Até tentou se mudar pra um vilarejo no interior do Uruguai, mas não conseguiu ficar lá por muito tempo. Às vezes diz sentir aflição ao ver os jovens brasileiros cultuando tanta porcaria que é produzida e que eles chamam de música.  Tudo isso são realmente sérios motivos para não ser feliz. Mesmo assim, Belchior ainda canta muito mais, porque não é mudo. Porque não esqueceu do menino e seu violão metalizado, que, na feira de Sobral, não se importava mais se não era ouvido.

Bruna Surfistinha (2011) – Marcus Baldini

Por Gustavo Massud em 28/03/2011 s 9:37

A trágica história da garota de programa que fez muito sucesso e teve que parar de trabalhar.

A dita profissão mais antiga do mundo ainda é um tabu para a sociedade. Num país majoritariamente cristão e com certa hipocrisia em relação ao sexo, a história do sucesso digital e literário de Raquel Pacheco chega a ser uma ironia no destino brasileiro.

Como a maioria das histórias de pessoas que subverteram sua ordem social, se faz necessária uma justificativa para esse fato. Acontece que o filme comete seu primeiro e grande erro ao tratar com descaso essa parte importante da história. A tensão familiar pela qual Raquel passa é insípida e o espectador não identifica uma razão clara para a saída da protagonista do ambiente familiar, que acarretará na transformação dela na Bruna Surfistinha do título.

Débora Secco num trabalho que praticamente a inclui no conceito de star system, repete uma de suas muitas facetas já conhecidas na televisão. A personagem de classe média, aparentemente escanteada por quem a cerca, tenta buscar a evidência de formas não convencionais, quase sempre usando o corpo como arma de conquista.

A atriz consegue convencer como adolescente com seu jeito retraído e isolado. O problema é que toda a adequação na interpretação é praticamente limada pela escolha equivocada do figurino. Uma adolescente, que conscientemente se acha sensual, à revelia do posicionamento dos garotos na escola – tendo em vista a cena inicial do filme onde ela faz um strip pela web cam – não se vestiria nunca com roupas longas e totalmente cobertas, como mostrado no filme.

A partir do momento em que Raquel passa a integrar a equipe de garotas de programa, chefiadas por Larissa (Drica Moraes), o filme se perde completamente. Se torna episódico, como uma série de TV onde cada capítulo seria dedicado a um cliente da agora, já intitulada, Bruna. As relações da protagonista com os personagens secundários são rasas e muitas vezes buscam trazer um alívio cômico descartável para a história.

Focando um pouco mais na parte que poderia ser considerada chocante no filme, que são as cenas de sexo, as considero decepcionantes. Primeiro na escolha feita pelo diretor, Marcus Baldini, ao utilizar planos extremamente convencionais. Esses planos causam uma sensação nostálgica de filmes de qualidade duvidosa que passavam nas madrugadas de sábado da TV Bandeirantes. Nada muito diferente da famosa série de filmes Emmanuelle.

É de se espantar a mudança radical pela qual a atuação de Débora Secco passa quando ocorre a transformação de Raquel para Bruna. A ingenuidade passa a ser usada como sedução, mas é algo tão conscientemente falso, que causa certo constrangimento. É como se o Gato de Botas de Shrek conseguisse ser mais verdadeiro ao fazer seu olhar de fofura do que a própria atriz. Isso causa certa ambiguidade, já que é difícil avaliar se acontece por intenção da atriz ou por defeito na interpretação mesmo. Numa contextualização mais paralela, onde encaramos essa insegura ingenuidade como o arquétipo da prostituta que faz aquilo por não ter outra opção, se encaixaria perfeitamente. Mas no caso de Bruna, não parece ser assim.

Quando Bruna passa a ser independente e começa a trabalhar por conta própria, encontramos alguns percalços no caminho do filme. A direção de arte, que já não era das melhores anteriormente, passa a incomodar quando a garota se muda para um flat com a amiga Gabi (Cristina Lago). Tudo é muito higienizado, no lugar, não há um defeito sequer em sofá, cama, banheira. É duvidoso que alguém consiga manter tamanha organização num ambiente onde o fluxo de pessoas é tão alto.

Entretanto, nada parece tão intransigente como o tratamento dado aos personagens secundários, como a Gabi e o Huldson (Cássio Gabus Mendes). Essas são as pessoas que têm uma relação mais próxima com Bruna e no encaminhar para o final do filme, somem. O espectador, que pode ter criado uma simpatia por esses personagens fica sem saber o que acontece com eles. Obviamente uma falha do roteiro, porque dividimos alguns dramas da vida desses personagens secundários e que não são resolvidos ao final da película.

A já tão repetida história de alcançar o sucesso, a prepotência pela ilusão de poder e a entrada no mundo das drogas faz parte do último ato no filme. Nada que emocione ou traga alguma informação que já não foi vista antes.

A cena final é ladeada pela música Fake Plastic Trees, do Radiohead, que dentro do discurso final e moralizante soa tão cômico como as músicas de brega, que também são partes componentes da trilha sonora.

O filme aparentemente dá a impressão de querer passar uma mensagem, quase um pedido desculpa por ela fazer o que faz, mas justificada pelo seu sonho de independência, o que não convence. Até porque ninguém a culpa por sua escolha. Durante boa parte do filme, Bruna Surfistinha aparenta ser uma garota feliz com o que faz. E na verdade, o sentimento que fica é de pena, por ela ter parado de trabalhar com o que tanto gostava por conta do sucesso.

Diga não pra mim…

Por MAIS QUE NADA em 15/03/2011 s 11:13

Ele chega e logo se apaixona. Ela, por outro lado, tenta fugir do sentimento, mas também é pega sem nem ter tempo de pensar. Se apaixonam, pois. Aí vem o namoro. Ah, o namoro… Como sempre, o início é muito belo, romântico, azul como o céu de janeiro. O início é cego demais pra ver adiante. É a coisa mais maravilhosa que se pode acontecer. Ele te liga mais de 20 vezes ao dia pra te dizer que está com saudade, que te ama, que você é a mulher da vida dele, pergunta se você quer sair para jantar, quer te levar em casa todos os dias, e, assim, você se sente uma verdadeira princesa. Mas o tempo passa (ele sempre passa) e as coisas mudam (sempre mudam).

Ele agora não costuma mais te ligar tanto, nem dizer que te ama com a frequência de antes. A rotina é a lápide dos sentimentos e, sem perceber, faz com o que as coisas não sejam mais tão interessante como da primeira vez. Mas aí precisamos fechar esse ciclo, oras, vamos casar? Ah, o casamento… Eu me lembro das historinhas que lia quando pequena, o príncipe casava com a donzela indefesa e viviam felizes para sempre. Então, nada mais óbvio que eu casar também para ser feliz. Aí, tudo volta a ser como no início (ou fingimos ser). É amor pra cá, te amo pra lá, rosas, chocolates, minha esposa, meu marido. Até que, não mais que de repente, a rotina, que perdera nosso endereço, nos descobre novamente após consultar o 102. Aí vem a toalha molhada em cima da cama, a camisa jogada na sala, papéis espalhados por todos os lugares e a pia suja depois de escovar os dentes. Essa história de casamento era tão simples que você se sente enganada pelas historinhas da Disney. Aí eu me pergunto, e depois, o que acontece? Onde está escrito essa parte? Acho que nunca encontrei este livro…

Ah, minha cara… A vida não é aquele conto de fadas, que um dia você sonhou que fosse. Esse seu romantismo utópico é muito diferente do que a realidade te guarda. Talvez apenas nos seus sonhos o casamento seja um conto feliz, onde as duas pessoas vivam felizes. Para sempre.  Sem saber que, como diria a música, o “pra sempre” sempre acaba.

Quem precisa da felicidade?

Por Gerson Quirino em 25/02/2011 s 11:56

Durante muito tempo, tornou-se quase irrefutável o clichê romântico de que ninguém seria capaz de explicar o que era a felicidade. Apesar de concordar que essa análise é por demais subjetiva, a ciência, hoje, revela alguns sinais que fazem cair por terra todo o lirismo platônico acerca desse assunto.

A felicidade, aquela idealizada ao longo de tantos séculos, não existe. Isso mesmo e, pra piorar (ou não) as coisas, talvez ela ainda atrapalhe o nosso bem-estar.

Mas acalme-se. Não precisamos dela e você vai entender o motivo.

Não sabermos explicar a felicidade já é condição precedente de ser impossível alcançá-la. É como querer chegar num lugar que não sabemos onde está, nem os caminhos que levam a ele.  O lado menos encantador desse fato é que, ainda que você tenha ouvido uma infinidade de “felizes para sempre” em historinhas que rodearam a sua infância, esse “para sempre” é algo absolutamente questionável, porque a felicidade, em sua essência, não pode ser plena. Ela se conjuga com o verbo ‘estar’ e nunca com o verbo ‘ser’ (que em português faz toda a diferença) e, quando se revela, o faz aos cacos, nos forçando a uma busca que jamais tem fim.

A velocidade em que o mundo impõe novos padrões de comportamentos e moldam as relações sociais é muito mais rápida que a nossa adaptação a esses acontecimentos. E hoje vivemos muito mais preocupados em nos dizer felizes do que em levar uma vida com leveza e serenidade. É aqui que chegamos ao ponto crucial: como se não bastasse a felicidade não existir em plenitude, o seu conceito utópico ainda é um mal social que causa efeito contrário ao proposto anteriormente. Em outras palavras, o conceito de felicidade que temos hoje é a principal responsável por nossas tristezas.

Não é difícil olhar em volta e ver uma infinidade de rostos sorridentes ou conhecer alguém que sai em fotos com intuito maior de atualizar seu perfil da mais recente rede social. Mas será que essas pessoas são mesmo tão felizes quanto os seus álbuns de férias na praia? Não, não são. É o que diz o estudo publicado pela American Sociological Review. Após a análise do cotidiano de 3 mil depressivos em tratamento, percebeu-se que 87% dos pacientes que participavam de alguma rede social tinham perfis que sugeriam ser pessoas felizes e saudáveis. Esse fato, em menor proporção (dado o universo específico da pesquisa), também é extensivo pra sociedade como um todo. A depressão se tornou o mal de uma sociedade que decidiu ser feliz a todo preço, afirma o escritor francês Pascal Bruckner. Ser triste hoje em dia não é estado de espírito, é fracasso. Lágrimas são repudiadas e baixa auto-estima custa caríssimo a sua imagem. Estamos fazendo muito mais esforços pra parecer felizes, plastificando sorrisos e morrendo por dentro. Essa felicidade é o peso do mundo moderno e, definitivamente, não precisamos dela.

Outra pesquisa da Universidade de Wisconsin-Madison, liderada pelo sociólogo Chaeyoon Lim, relata que o conceito de felicidade é diretamente proporcional ao nível de religiosidade e inversamente ao nível de escolaridade das pessoas. Ou seja, o ignorante acredita ser feliz por desconhecimento e o religioso, por acreditar que tudo é parte dos planos divino.

Acreditar-se capaz de ser feliz é o motor social, como durante muito tempo foram as religiões.
Acreditar ser feliz é fechar os olhos pra si mesmo e cair no confortável colchão da inércia.

Considerando a felicidade como momentânea, podemos experimentá-la sem expectativas excedentes, em pequenas doses, até por isso mais interessantes. A perspectiva de encontrá-la ao virar uma esquina qualquer é o que conforta a vida, ainda que saibamos que esse contato pode não demorar muito.

Logo, se você não é tão religioso e tem um bom nível escolar, não se desespere. Talvez não se preocupar em ser feliz, seja o caminho mais curto para uma vida mais leve e tranquila e isso, definitivamente, é melhor que querer ser parte de um conto de fadas onde o céu é sempre azul.

Pequenas Histórias de Amor – Volume II (ou: o moço da bicicleta verde)

Por MAIS QUE NADA em 15/01/2011 s 11:47

Samarone Lima do Estuário

Ela era casada, mas sempre que ele passava, geralmente de bicicleta, ela sentia aquela fagulha, ou aquela “coceirinha no coração”, como me disse outro dia um grande amigo. Olhava o rapaz, seu jeito de pedalar meio manso, como se estivesse saboreando cada sopro daquele vento. Achava lindo ele e aquela bicicleta verde. Ele, por sua vez, tinha reparado nela, mas sabia que era casada, tinha um filho, então seguia pedalando, pedalando, por outros caminhos.

O tempo passou, ela separou. Um dia, foi a uma mercearia, próximo da sua casa, encontrou um amigo. Tomaram uma cerveja, mataram saudades, até que o rapaz chegou, em sua bicicleta verde. Ela teve um susto, perdeu o rumo da conversa. O amigo conhecia o rapaz e a apresentou. Ele morava ali próximo, ela nem desconfiava, mas era quase seu vizinho.

Mas foi tudo rápido. Ele comprou um saco de bolachas e saiu pedalando. Ela guardou, deste dia, seu sorriso de corpo inteiro. Descobriu também que adorava as bolachas que ele comprara.

O tempo passou. Há alguns dias, ela me contou que o encontrou. Saiu de casa para comprar uma melancia, numa tarde de sábado. Quando passou pela venda, ele estava tomando uma cerveja com um amigo e a convidou para sentar. Ela, assustada, deixou a melancia para depois.

Foi uma conversa boa, cheia de sorrisos e pequenos esboços de luz. O bêbado que passou, falando de futebol, o dominó à sombra de uma grande árvore, cães mansos cochilando em plena tarde. Quando ela estava para sair, ele a convidou sem muito pudor.

“Vamos tomar a saideira lá em casa?”.

Ela foi. Sempre quis ir.

Sabe-se que se amaram a tarde inteira. Já era noitinha, quando ela cheirou os cabelos dele. Não, não cheirou, ela respirou profundamente os cabelos dele.

“Eu sempre quis cheirar teus cabelos”, disse.

Foi assim, tudo bem simples, como quem compra uma melancia, numa tarde de sábado.

Pequenas Histórias de Amor – Volume I

Por MAIS QUE NADA em 14/01/2011 s 11:56

Samarone Lima do Estuário

Ele descobriu que a amava quando tinha 15 anos, em 1984. Ela estudava na mesma turma, e quando entrava na sala de aula, ele cantarolava intimamente “pela luz dos olhos teus”, porque havia algo de encantador nos seus olhos, no que eles diziam, uma ternura que cativava aquele coração tão moço. Ele lembra, vinte anos depois, do dia em que ela fez circular um caderninho para os amigos deixarem mensagens, e atravessando a fronteira da timidez, escreveu “você é meu único e definitivo poema”. Depois disso, eles desencontraram.

Ele entrou na faculdade e, como me disse há poucos dias, se distraiu das coisas do amor. Conheceu outras mulheres, se encantou com algumas, mas nenhuma tinha aqueles olhos. Se reencontraram anos depois, quando ela terminou a faculdade. A última cena deste novo contato foi ela se beijando com um sujeito, no baile de formatura. Como queria estar naquele lugar!

Os dois casaram e não se viram mais. Aqui e ali, nos encontros com os amigos da turma, uma notícia esporádica. Somente em 2001 voltaram a se ver, num encontro dos velhos amigos, para cativar lembranças. Na primeira vez que o viu, depois de tantos anos, ela comentou com uma amiga– “o menino virou homem”. A resposta da amiga acendeu alguma chama que ela nunca percebera – “o teu apaixonado chegou”. Surpresa em saber daquele amor silencioso, ela ficou em silêncio, achando-o mais belo.
“Aquela frase da amiga foi um sopro divino”, me disse ele, repassando os detalhes da história, enquanto tomávamos uma cerveja.

Mas a vida seguia outros cursos. Tinham compromissos, casamento, filhos. Em 2002, voltaram a se encontrar. Pare ele, já não era tão fácil olhá-la nos olhos. E a turma, sem perceber que alimentava um sentimento que parecia perdido, colaborou para que voltassem a se ver. Um novo encontro, em 2003, serviu para que ele confirmasse que aquele menino estava vivo, dentro de sua alma, querendo amar plenamente.

Em 2004, por uma desculpa qualquer que sempre encontramos, quando queremos algo de verdade, almoçaram juntos. Ao final da longa e cativante conversa, ela perguntou:

“Você sentia alguma coisa por mim naquela época?”

“Eu era muito apaixonado por tu”, respondeu ele.

Algo rompera na timidez dele. Ela agora sabia de algo secreto, que ele trazia há muitos anos. Voltaram a falar de literatura, cinema, dos caminhos profissionais, mas algo já tinha sido dito, e era irreversível. Pronunciaram, timidamente, o nome do amor.

Quando se encontraram novamente, nada mais poderia ser feito. Os dois se queriam tanto, que quando ele a abraçou, sentiu que estava protegido, acolhido, que aquele era o melhor lugar do mundo para estar.

Os mundos que viviam exigiam outras respostas. Sim, os compromissos, outros laços haviam sido firmados em duas décadas. Ela foi mais incisiva. “A partir de hoje, morreu”, disse, na despedida. “Essa história acaba por aqui”, repetia, muito séria.
“Como vou te tirar de dentro de mim?”, perguntou ele.

Nas longas semanas de silêncio, ele também fazia o esforço. Ao final do dia, se perguntava – “será que pensei nela hoje?”. Sim, era a resposta. Sua dúvida era saber se, em algum momento do dia, ela tinha pensado nele, para que os pensamentos se encontrassem, em algum ponto da cidade.

No último encontro dos amigos, ele bebeu para chegar ao bar com o coração entorpecido, para que a alma não o traísse. Escolheu um ponto da mesa em que não pudesse vê-la. Decidiu que não a olharia, em hipótese alguma, durante toda a noite. O cumprimento formal, gelado, era a tentativa dos dois de administrar algo que era quente, muito quente, por dentro. Ela confessaria, dias depois, que quando o viu, suas pernas tremeram. Agradeceu a Deus por estar sentada. Na despedida, ele a olhou de longe e acenou. Viu aqueles mesmos olhos e desejou cantar “pela luz dos olhos teus”.

Naquele fração de segundos, o sentimento desvendou os dois. Nada mais poderia ser feito. No dia seguinte, se falaram. Era preciso fazer algo. “Não consigo te tirar de dentro de mim”, confessou ele.

Sim, eles fizeram as escolhas e tomaram decisões. Não podiam abrir mão do sagrado, da calma que sentiam estando juntos, da plenitude que encontravam em cada palavra. Num dos encontros, ele falou ao seu ouvido o poema “Teresa”, de Manuel Bandeira. “Os céus se misturaram com a terra/E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas”, diz o final do poema, que parecia ser o que viviam. Céus e terras se misturavam.

Vinte anos depois, eles decidiram assumir o amor.

E quando estava a terminar esta crônica, me chegou um email de um amigo, com o pequeno trecho de um poema do Drummond:

“Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?”

Minimalista

Por Gerson Quirino em 10/01/2011 s 14:15

Casa
Comida
Roupa
Suja
Silêncio
TV
Você
Telefone
Mudo
Absurdo
Despida
Respira
Pensa
O que eu fiz da minha vida?

Tudo Novo de Novo

Por Gerson Quirino em 31/12/2010 s 18:32

Mais um ano termina em algumas poucas horas. Inevitavelmente, terminam com ele, talvez como aviso prévio da incapacidade humana, as tantas promessas que ficaram pela metade, a quase realização de alguns sonhos e a possibilidade natural de uma vitória completa no ano que, agora, chega ao fim.

No meio de toda a reflexão que – pra maioria – só insiste em aparecer nessa época do ano, a esperança é o conforto mais próximo. Esperança de dias melhores, de novos sonhos palpáveis, de realizações perenes e mais medalhas de ouro pra serem postas à vista de quem queira enxergar.

A esperança é o pior dos males, porque prolonga o tormento, dizia Nietzsche. Ela é o único sentimento que auxilia todo e qualquer tipo de sofrimento, prolongando-o e aumentando o limiar de nossas dores. Quase como um anestésico, que minimiza a dor, mas não cura a doença. A mitologia grega já reconhecia a esperança como um dos males mais perigosos. Ainda que erroneamente interpretada, Pandora, ao libertar todos os males de sua caixa, deixou por último a esperança. Não por ser a aquela que salvaria o mundo, mas por ser a única capaz de camuflar a dor daqueles que não conseguiriam enfrentar tanto tormento.

A esperança em dias melhores nos deixa acomodados e assim, esquecemos de lutar pra que as coisas realmente mudem. A esperança de reencontros e reconciliações só serve pra prolongar a não-vida que existe no espaço entre o fim de um relacionamento e a vida que segue sem dar a mínima importância aos cacos do seu coração.

A esperança é o motor quebrado do curso natural da vida. É a inércia e o comodismo que deixa tudo como sempre foi, imutável, com os mesmos defeitos, planos pela metade, promessas e tantos “quases”, que só é percebida por muitos ao fim de cada ano.

Talvez viver sem ela não seja a solução mais viável. Mas saber quando esquecê-la é a maneira mais sábia de recomeçar sempre e de fazer com que o passado fique no passado. Esquecer a esperança é acreditar mais em si mesmo, assumir a direção de nossas próprias vidas, é fortalecer os pulsos pro próximo round que acaba de começar.

Por isso, totalmente na contra-mão, como sempre fui, desejo a todos um 2011 sem esperança. Não precisamos dela e é muito mais sensato enfrentar sem medo nossas fraquezas, do que acreditar que alguém vai vir de longe e nos salvar de toda a nossa incapacidade e covardia.

Vade retrum, Santa Claus…

Por Gerson Quirino em 20/12/2010 s 23:06

Toda vez que o fim do ano começa, também tem início o fim da minha calma habitual. O desespero que toma conta de mim quando escuto uma musiquinha natalina é algo indescritível. Simone e Roberto Carlos saem dos discos empoeirados de forma tão intensa, que eu só lembro que eles existem quando o Natal se aproxima.

Vai chegando meados de novembro e eu já começo a ficar meio desconfiado, cabisbaixo, como um cachorro recém tosado ou um lutador que espera o primeiro golpe, mas não tem a mínina noção de onde ele vem. Aí aparecem os primeiros pisca-piscas, assim, como quem não quer nada, uma ameaça que eu finjo ignorar muito bem, mantendo certa distância ou desviando os olhos. Mas não demora muito e, como um efeito cascata de socos e pontapés, aparecem mais de mil luzes de uma só vez e musiquinhas – malditas musiquinhas – tocando em todos os lugares. Shoppings, rádios e elevadores, como um grande coral, me avisam em uníssono que não dá mais pra disfarçar meu fim, anunciando sua chegada com a melodia macabra que se repete na cabeça o dia inteiro: “então é Natal, o que você fez? O ano termina e nasce outra vez”.

Pronto, está decretada oficialmente - e pelos próximos 30 dias – a minha depressão anual inevitável.

Não sei como explicar de forma racional o que acontece comigo durante o mês de dezembro. Deve ser combinações de astros somados a fatores bioquímicos que se desencadeiam em tristeza e sentimento de perda. Isso mesmo. Todo dezembro eu perco alguma coisa que eu ainda não descobri ao certo o que é. O pior de tudo é que me dói perdê-la. Talvez seja a juventude, o tempo, as lembranças, não sei. Bem no meio dessa turbulência, e como se já não bastassem as horas regressivas me jogando na cara que mais um ano se despede, vem a pergunta clichê: valeu a pena o que fiz nos últimos 12 meses?

Nunca tenho resposta certa pra essa pergunta. Também, não tenho tempo suficiente pra pensar, são muitos abraços, beijos, tapinhas nas costas, apertos de mãos, cartões e presentes. Tudo, é claro, com a mais sincera hipocrisia que temos dentro de nós.

Não há como fugir disso, eu desconfio. Já vivi natais suficientes pra saber se era algo passageiro. Não foi. Mas, todo ano, eu tento algo diferente, pra ver se o velho Noel esquece de me visitar. O truque da vez é não tirar, por nada nesse mundo, os fones do mp3 do ouvido em ambientes públicos. Mas Simone sempre vence no final. Eu ainda não escutei esse ano, mas acho que ela invadiu meus sonhos e hoje eu acordei com essa música na cabeça. Acho que colocaram pra eu ouvir enquanto eu dormia, só pode. Esse ano, eu consegui adiar até agora essa minha depressão. Já me considero um grande vencedor por isso. Mas hoje, meus amigos, a partir de hoje, eu sou um depressivo. Respeitem, pois, nesse fim de ano, o meu silêncio e o meu sorriso amarelo, até, quem sabe, um pouco depois do raiar de janeiro, que é quando começam os preparativos de alegria ascendente para o reinado de Momo.

O carnaval é, antes de tudo, o meu presente de Natal tardio e mais que merecido.

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