Homo Solitarius
Dessa vez, era uma heroína. Uma mulher nem velha, nem nova, num programa de novos talentos. Ela queria cantar, mas duvidaram do seu potencial pela aparência que apresentava. Como todos desconfiam, e já era de imaginar, a mulher soltou uma belíssima voz, emocionando toda a platéia e os jurados. O vídeo é legal, realmente emociona, mas depois disso, torná-la uma celebridade universal é, digamos, no mínimo, uma carência profunda no que diz respeito às relações humanas. Antes desta mulher, tinha sido outro carinha, antes dele, um filme besta, um político corrupto e um Best-seller da moda, que de best não tem nada.
O ritmo da vida contemporânea enfiou em nós um sentimento cada vez mais rígido no campo dos sentimentos, forçando-nos ter menos atenção aos pequenos detalhes da vida. A consequência disto é a rigidez que, por estar tanto tempo longe de verdadeiras emoções, se desmonta frente a qualquer discurso populista com uma música ao fundo. Nasce, portanto, mediante a demanda emocional dos novos carentes, que em breve serão absolutos, os heróis dos 5 minutos. Aqueles que salvam sua vida, te enchem os olhos de lágrimas e o coração de esperança durante 5 minutos. E só. Depois volta tudo ao normal.
No meu tempo, os heróis eram mais duradouros e as histórias terminavam com um final feliz pra sempre.
As decepções e o caos são parte fundamental dessa doação psicológica. Os mais fáceis de enganar são geralmente os mais necessitados, que são os que detêm a maior esperança na mudança da realidade. Paralelo a isso, há a indústria da esperança, que move bilhões por ano com livros de auto-ajuda e coisas já citadas aqui. Vender a mentira para quem precisa de verdade é também a forma mais fácil e cruel da vileza.
O fato é que os “bom-dia” estão cada vez mais raros e é fácil identificar os calos alheios, tantos olhos opacos. As pessoas estão esquecendo como sorrir.
O homem que sempre precisou de heróis para se espelhar e saber guiar suas vidas, hoje os busca como solucionador de uma parte de seus traumas, medos e desconfortos. E há tanto disso em cada um, que tem de haver também muitos filmes, políticos e livros, a cada minuto, para compensar essa mácula criada por nós mesmos. Este homem está cada vez mais só – homo solitarius – e essa carência demonstra o lado mais exigente de todos os espaços vazios dentro de nós, que é, ao menos, muito bem disfarçada em apertos de mãos e sorrisos plastificados em elevadores.



Retrato suscinto e fiel da realidade atual.
O homem tem ainda à sua disposição aparelhos eletrônicos que o figem se aproximar de outros homens, cria “amigos” que nunca viu, e falseando preencher a solidão, o torna ainda mais desconcertado diante de si mesmo e do outro.
O herói, o ídolo, tem que ser procurado, criado ou descoberto em si mesmo, para esquecer a busca ilusória no mundo externo descartável.