Ela tanto, tantas vezes…

Por Gerson Quirino em 14/07/2010 às 11:46

Era engraçado encontrá-la sempre com pessoas diferentes. Como se ela tivesse milhões de amigos e nenhum ao mesmo tempo. Ela não se pertencia, por isso não poderia dar-se nunca. Encontrei-a várias vezes perdida, com pernas cruzadas e segurando a mão de outro que não eu. E vi várias fotos iguais, com o seu mesmo sorriso e ao seu lado um sorriso diferente, coadjuvante. Como se ela tivesse milhões de amores e nenhum ao mesmo tempo.

Ela era sempre noite porque temia a luz, embora nunca tivesse revelado. Embora mentisse gostar dos pores-do-sol. Não fosse o cigarro, eu não reconheceria sua face já tão danificada por sim mesma, por uma busca que ela acreditava ser pela felicidade. As unhas que seguraram por várias noites tantas idealizações, agora eram pintadas de vermelho como seu sangue, que já nem trazia mais tanta convicção. Refazia-se com a mesma velocidade de sempre, ou, pelo menos, acreditava nisso com a mesma brevidade.

Era engraçado encontrá-la com pernas estranhas, em lugares diferentes, com pessoas cruzadas, esperando o amor lhe dar notícias que desconhecia. Esperando ser outra e ao mesmo tempo querendo a metamorfose de quem segurava a sua mão, acreditando fazê-la sentir-se segura.  Encontrei-a, mas já não era a mesma há muito. Ela é sempre várias e, talvez por isso, ao mesmo tempo, não consegue ser ninguém.

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