A carta
Querida,
Já faz um tempo que penso em te dizer coisas que você não iria entender facilmente pelo fato de depositar em nós tantas idealizações. Deixando o platonismo de lado, pelo menos nesse instante, devemos encarar a realidade desnuda, a fim de preservar nosso relacionamento e fazer crescer em nós uma aceitação leve e menos pesarosa quando se trata dos fatos tensos.
Há verdades eternas quanto a minha individualidade, essencial a mim, que você nunca irá saber. Não por maldade em esconder o que de fato faz parte de mim, mas, pra não te ferir, só te mostraria o que seus olhos aguentariam enxergar. Você pode não entender coisa alguma e me julgar com palavras torpes como já fez tantas vezes, mas o fato é que ou aceitamos nossas escuridões, ou jamais brindaremos nossa luz. Não queria que soubesse assim, uma carta com esse conteúdo traz frieza e sentimentos distantes, mas concluí ser esta a melhor forma de tirar essa redoma de aço que envolve tudo o que você acredita como verdades absolutas. A verdade é que tenho outras mulheres além de você. Outras mais belas. Algumas até mais inteligentes, porém nenhuma mais amada. Você pode nem querer ler as palavras que seguem, tem todo o direito. Mas vou escrevê-las mesmo assim, na esperança que chegue ao fim desta carta tendo plena consciência da realidade que faz parte de nós, se é que ainda existe um nós.
Andei pelo mundo sonhando junto aos contos de fadas que me contaram quando criança. Nunca me contentei em ser apenas de um jeito. O desconhecido sempre me atraiu e confesso que assim, e justamente por isso, cometi erros que apesar dos desencontros são ótimos professores.
As mulheres das quais falei foram casos efêmeros, substanciais. Algo que serviu de distração ou puramente pra te dar mais valor, depois de reconhecer que elas não chegavam aos seus pés. Além de tudo, há algo de mim que só pertence a você: o meu amor. Este que me guiou pelos caminhos tortos, foi omitido toda vez que deitava em outras camas, quando sentia outros perfumes, quando o sussurro, no escuro, não tinha o som da sua voz.
Algumas vezes me arrependi de verdade, noutras tantas nem liguei, talvez por acreditar que os corpos nada interferem nas almas. O que fiz foram tentativas de mostrar a mim que eu poderia viver quando não estávamos juntos. Algumas vezes eu consegui, em outras, tinha mais certeza que você era a mulher da minha vida.
Talvez essa carta soe de forma a revelar uma sinceridade que nunca compartilhei com você, pode ser essa a intenção. Porém jamais interprete como um pedido de desculpas aos fatos corridos. Sentir-me perdoado talvez seja um grande estímulo a cometer os mesmos erros novamente.
Não sei se depois de tudo isso iremos permanecer juntos. A decisão que, por ora, cabe somente a você, só sofrerá interferência minha depois que também me contar sobre os tantos homens que deitaram em nossa cama nas noites que me ausentei por pura vontade. Aí então – e só então – recomeçaremos tranquilos, compartilhando a sinceridade que jamais fez parte de nós.



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