“Toda Bossa é nova e você não liga se é usada”
Antecipadamente devo salientar que, como dito no primeiro post deste blog, as opiniões aqui expressas são pessoais. Além disso, os assuntos abordados e discutidos em determinado texto são de inteira responsabilidade do autor. Não sendo, necessariamente, uma opinião em comum entre todos os editores do blog. Dito isto, vamos ao que interessa!
Lá pelo fim dos anos 50, surge um homem que viria mudar a história da música brasileira. Criando uma nova forma de cantar e tocar, João Gilberto nos apresenta a Bossa Nova. De estilo rebuscado, a Bossa não era pra qualquer um, era só pra quem podia. Mas com o passar dos anos, além da revolução causada no pontapé inicial, que outra evolução musical considerável o gênero criou?
Devo confessar que não sou fã de Bossa, admiro muito mais a personalidade de alguns de seus autores do que a música em si. Mas ao mesmo tempo não vou negar que era uma geração de poetas e músicos espetaculares, que deixaram sua marca na história.
Gostaria de fazer comparações com outras vertentes musicais para ver se esclareço meu ponto de vista. A bossa seria como se Elvis tivesse inventado o rock ao seu estilo, causado toda aquela revolução, mas o rock não tivesse evoluído, passando a outro nível. Não apareceriam Beatles, Black Sabath, Led Zeppelin, The Who, Pink Floyd, para citar só algumas bandas que elevaram o estilo a outro patamar, sempre buscando quebrar barreiras e sair do convencional. Utilizando uma comparação mais próxima da nossa realidade, era como se Noel Rosa criasse o samba ao seu estilo e mais tarde não aparecesse Chico Buarque. O samba estagnaria no que Noel fazia.
Meu verdadeiro problema com a bossa, talvez esteja na caretice de sua música. Extremamente rebuscada e algumas vezes até pretensiosa (“bossal” , por assim dizer). Muitas vezes, só esses dois fatores bastam para tornar a música chata e pedante. Toda a sua geração é formada por gênios. João Gilberto era o pai da bossa, Tom Jobim, o maestro e Vinícius de Moraes, o poeta (ou poetinha, como era apelidado), isso para falar dos mais famosos. Mas onde foram parar os músicos que transgrediram dentro do estilo? Onde estão Bob Dylan, Jimi Hendrix, Paul e John dentro da bossa?
Muitos podem argumentar que a bossa se criou perfeita. Mas como a gente pode falar uma coisa dessa? Música é arte e a arte é mutação, criação e inovação. Como estaria o mundo hoje sem Picasso, Chaplin ou Mozart? As coisas evoluem, as pessoas evoluem, o mundo evolui, porque a bossa deve ficar parada?
Concluindo, pra mim o melhor disco da geração bossa nova é o de Vinícius com Baden Powell, Afro-Samba. Como o próprio nome diz, o disco nem é de bossa em si. Entretanto, eles mudaram de ares, fizeram algo diferente, fugiram do convencional. E é isso o que vale no fim das contas. Um pouco de ambição não faz mal à ninguém. Fazer mais do mesmo não valoriza o estilo. Quem vai quebrar as barreiras e levar a bossa para outros caminhos? Não sei, mas estou aguardando. Deitado, de preferência, para ver se me ajuda a pegar no sono.



Genial!
É muito sensível essa tese.
A bossa pode ter parado, mas moldou outros estilos, não? O que seria da MPB sem a Bossa?! O que seria de Chico Buarque sem o samba de Noel e a Bossa de Jobim?!
Por outro lado, concordo com a teoria do rock. O som de Elvis não é o mesmo dos Beatles, mas é rock da mesma forma.
defina no seu entendimento “música careta” e “bossal”.
(…)
“Mas onde foram parar os músicos que transgrediram dentro do estilo? Onde estão Bob Dylan, Jimi Hendrix, Paul e John dentro da bossa?”
A Bossa Nova já é uma transgressão.
A BN quebrou paradigmas, revolucionando o que se fazia no Brasil até os anos 50.
Ela é a própria transgressão, formada por inúmeros transgressores!
Cantar “desafinado” em contraponto ao excessivo “melodismo” feito até então nos choros-canções, sambas e boleros; montar harmonias baseadas em dissonâncias até então pouco – talvez nunca – experimentadas pelos compositores dos anos 50 pra trás; falar “do amor, do sorriso e da flor” em contraponto à temática da fossa que antecede a BN; usar e abusar da relação entre a letra e a música, isto é, deixar inseparáveis “o que se fala” com o “como se fala”; a famosa “batidinha sincopada” de J. Gilberto, simples porém imensamente inovadora que definiu a BN…
Concordo contigo quanto ao afro-sambas. Foi um momento áureo dos encontros do Vinícius com o Baden Powell, o poetinha influenciado desde sempre pela Bahia Way Of Life e Powell descobrindo uma relação dos cantos gregorianos com a música “afro-baiana”.
Quanto a quem vai levar a BN pra outros caminhos eu já não sei… porque a bossa já é um caminho, uma ramificação sobre a qual muita gente andou/anda sobre. A bossa não é um capítulo a parte na música (brasileira), até porque ela tem origens e é produto do samba, do jazz e do erudito.
Por fim, recomendo escutares com atenção – e com o pé no chão – a música Desafinado do Tom para perceberes de vez a transgressão e o transgressor, aliás, uma transgressão e um transgressor.
Achei o blog por acaso, muito boa a iniciativa!
Fiquei feliz com essa discussão toda! A intenção era essa mesmo.
Bem, concordo com você que a BN é um estilo transgressor por natureza, comentei isso no texto, quando falei: “além da revolução causada no pontapé inicial…”
Mas minha crítica parte da zona de conforto em que este tipo de música se encontra. Desde que João Gilberto começou a tocar com o seu fraseado inovador, nada mudou até hoje. Os novos trabalhos são como continuações do passado, sem nada novo à acrescentar. Então eu só preciso ouvir algumas músicas do fim dos anos 50 e pronto, estou muito familiarizado com a bossa? Porque depois disso, o que foi feito de inovador dentro do gênero? O frevo aqui em PE, talvez sofra do mesmo mal.
Não concordo que a bossa seja uma ramificação, ela teve como base essas influências, mas a BN é algo extremamente inovador em sua natureza. Foi praticamente criado do nada. Diferente do samba rock de Jorge Ben, por exemplo. Que ele criou, mas a gente pode sentir uma característica muito forte das sua influências nas músicas. A gente ouve e fala: “Isso é samba e rock”.
Já com a BN eu não posso ouvir e falar: “Isso é jazz”, ou “Isso é samba”.
Quando eu falo careta é porque considero que eles não procuram arriscar a fazer algo diferente do que já foi feito. E quando cito “bossal” quero dizer da prepotência com que alguns falam de bossa como se estivessem fazendo a obra mais perfeita da música mundial. Isso acontece muito com os músicos e críticos da época que ainda estão atuando hoje. Elogiam qualquer coisa que seja classificado como BN. O próprio João Gilberto é a “bossalidade” em pessoa. Não faz questão de agradar ninguém, sempre reclamando e se achando a última bolacha do pacote (talvez até seja mesmo). Segundo um amigo, João Gilberto é o Rogério Ceni da MPB.
Não nego a influência que a BN trouxe para a MPB, mas minha crítica é focada dentro do gênero em si. Onde ninguém consegue olhar para ele e falar: “acho que esse negócio não é assim, vou fazer de outro jeito”. Parece que o povo tem medo de mudar. Ou estão esperando João Gilberto partir dessa para uma melhor, para fazer alguma coisa que possa “agredir” sua criação.
“O frevo aqui em PE, talvez sofra do mesmo mal.” Perfeito. Penso da mesma coisa. O que ferra tudo é que bossa você escuta quando quer, o outro 1 vez por ano cidade para, no carnaval, pra se escutar as mesmas velhas músicas. Grande parte disso se deve aos arcaicos pensadores da cultura pernambucana como Ariano Suassuna e Alceu Valença que, por serem gênios, são, justamente por isso, incontestáveis, como João Gilberto e cia.
Logo, se não for de Capiba não é frevo, se não for Cordel não é literatura pernambucana.
Mas a indesejada das gentes vem aí pra nos salvar do ostracismo cultural.
rsrsrsr
Amei este texto! o autor foi muito feliz e corajoso em suas colocações. Gostaria apenas de informar que segundo fontes fidedígnas Capiba sequer gostava de Carnaval.
Valeu Mãe! kkkkkkkkkkkkk
Dona Izaura é a maior! Segundo fontes fidedignas, por pouco Gustavo não nascia filho de Chico Buarque! hahahahah
De Chico não, mas de Vinícius de Moraes foi por pouco mesmo! hahahahaha
Bem,
entendo tua crítica.
Porém, isso não é um caso, um problema DA bossa nova. Isso é um caso geral, todos os gêneros sofrem desse mal…
Você já parou pra pensar o quanto que vivemos num período saudosista? Em que ouvimos e ressaltamos o que FOI feito e não o que É feito…?
…É bossa nova, é choro, é o jazz, é rock psicodélico ou progressivo, é a música barroca, clássica ou romântica…
Isso acontece porque faz um belo de um tempo em que não aparece alguém pra quebrar o que era feito e fazer algo novo de qualidade. Sempre que aparece alguém fazendo alguma coisa é sempre fazendo o que já é feito, mudando só o cabelo ou o nome.
E daí nós podemos dizer que esse PERÍODO que vivemos, sim, é um PERÍODO careta. Um período de muita ação, porém de rara criação, inovação (em se tratando de música, óbvio). Digo isso até te parafraseando… Onde estão os beatles de hoje em dia? Quem é o Chico Buarque de hoje? Quem é o Cartola de hoje? Quem é o Beethoven de hoje? Quem é o Gershwin de hoje?
Enfim, acho que esse pensamento da carência de mudanças significativas é válido porém não deve ser colocado na BN e sim no contexto.
Othon, concordo contigo em todos esses aspectos. Hoje a gente não vive um momento de grandes transformações nos gêneros já vigentes no mercado. (isso daria até outro post.)
Mas meu direcionamento para a BN é exatamente porque ela não teve nenhuma transformação significativa desde sua criação. O samba se transformou, desde que foi criado. Assim como o rock progressivo (em minha opinião), com o Radiohead. Assim também foi o jazz com Miles Davis e John Coltrane. E com a música clássica de Mozart à Beethoven.
É isso que eu queria salientar. O momento atual de outros gêneros não foi discutido no post. Eles já sofreram alguma transformação no decorrer da estrada. Mas a BN me parece estagnada no que seu criador fez.
To sem saco pra ler todos os comentários então não vou entrar na discussão.
Só vou dizer que o texto tem argumentos fortes, mas a única parte que concordo foi a de que a bossa nasceu perfeita!!
To gostando de ver blog pegando fogo.
Eu concordo com Gustavo sobre a BN e concordo com Othon quando diz que nada realmente novo e de qualidade apareceu nos últimos tempos. Pois é, bem que podia aparecer alguns malucos pra animar a festa.
E a música EMO?? Não é novidade suficiente pra vocês??
hahahah
Leiam “Noites Tropicais: Solos, Improvisações e Memórias” de Nelson Motta.
Ahh e Tia Izaura é a melhor mesmo! hahahaha
Já li filha! Nelson Motta viveu a BN, ele é um dos críticos que sempre elogiam a bossa. Mas sou fã dele mesmo assim. hehehe