La belle de jour
Ela tinha um rosto. Só preciso dizer isso. Não, quer dizer, ela tinha o rosto e um sorriso. Sabe aquele sorriso? Era aquele sorriso que contagiava, só o sorriso. Como quem chega em sua festa surpresa, de surpresa.
Ela tinha um rosto, um sorriso e um olhar. Era o olhar do céu, desconfio. Era o olhar do mar. Não era azul, nem verde, era só o olhar. O jeito de olhar, nada mais. Seus olhos se espremiam entre as pálpebras, quase como uma oriental. Mas não era oriental. Poderia ser… tudo ao mesmo tempo.
Ela tinha um rosto, um sorriso, um olhar e uma orelha. Isso mesmo, uma orelha. Ninguém repara em orelha, mas a dela era perfeita. Até nos seus defeitos, ela era perfeita. Delicadamente pontuda, para sair dentre seus lisos cabelos e mostrar que existe.
Ela tinha um cabelo também. Óbvio que tinha. Não era longo, nem era tão arrumado. Era curto e desleixado como se tivesse acabado de acordar. Era de uma cor que eu não sabia. Na verdade, sabia sim, era a cor de tudo que existe.
Ela não precisaria ter mais nada. Me contentaria só com isso. Mas ela tinha muito mais. Muito mais coisa do que eu precisava pra me contentar. Mas, por agora, eu só preciso dizer que ela tinha um rosto mesmo. E era o rosto, um sorriso e um milhão de outras coisas. A única coisa que não descobri é quem é essa mulher.



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