Mané, nem o Garrincha se deu bem

Por Gustavo Massud em 23/04/2010 às 12:15

Eu queria começar falando que não sou nenhum santo, mesmo que alguns dos meus amigos me considerem uma pessoa boa, até demais. Não sou puro e não sou hipócrita. Passa pela minha cabeça todos os pensamentos socialmente reprováveis. Porém, não tenho coragem de colocá-los em prática. Questão moral mesmo e de falta de atitude também.

Mas com o tempo passei a aprender certos traquejos da vida que me fizeram questionar essa minha falta de atitude. Até que ponto ser “bonzinho” demais é benéfico para mim? Eu acredito no conceito budista (acho que hindu também) do karma, se você faz uma coisa ruim, isso acaba retornando pra você de forma equivalente. É aquela coisa manjada do mundo dar voltas. Bem, eu sempre acreditei nisso, mas será que isso é mesmo verdade?

Quantos exemplos eu tenho pra dar de pessoas que tiveram atitudes extremamente éticas e se deram bem na vida? Eu digo se dar bem mesmo, aquela que você olha como exemplo, como se fosse uma meta para os outros. Não vale citar Gandhi, nem Madre Tereza. Esses sempre lutaram por uma coisa maior. Estou falando de pessoas eticamente corretas, que travam lutas em suas próprias vidas, para suas famílias. São poucas.

Sério, eu vou falar de dinheiro que é uma coisa tangível. Acredito que exista felicidade sem dinheiro demais, mas isso é inerente ao ser humano. Você poder ser feliz morando na rua e uma pessoa depressiva morando numa mansão. Entretanto, quantas pessoas a gente conhece, ou já viu passando perrengues financeiros, que batalharam a vida toda, não passaram por cima de ninguém e não conquistaram o que queriam? E quanto aos outros que não tiveram a mesma ética e se dão bem? Estão montados na grana, muitas vezes esbanjando e humilhando esses que trabalham duramente por uma vida.

Nos próprios filmes e novelas aqui do país, o malandro sempre é o que se dá bem. O bandido é visto como um mito, salvador do povo pobre. É o Robin Hood da nova geração, só não distribuem os louros. Mas ele não rouba de magnata inescrupuloso, bandido rouba de gente simples e batalhadora. Quem é rico está no seu condomínio ou carro de luxo, protegido por segurança melhor que cofre de banco. Agora, gente que batalha é obrigado a conviver com revólver na cabeça e trocar a vida por uns trocados, como se a vida tivesse valor. Não tem, são trocados que farão diferença não só na vida do ladrão, mas principalmente na vida da vítima que precisa pagar as suas contas e convive com o medo de uma sociedade que não respeita nem os seus iguais.

Que tipo de Robin Hood desvirtuado é este? Que mundo é esse que recompensa a malícia em troca da ética? Onde estamos com a cabeça quando elegemos um político extremamente ignorante ou incompetente, só para termos a nossa fatia da aristocracia parlamentar do Brasil? Será que o Brasil virará o país do “jeitinho”? Será que a criatividade brasileira só serve para o mal?

Eu não sei as respostas para isso e tenho receio de saber. Eu tenho muito medo do que me aguarda no futuro. Sendo “bonzinho” do jeito que sou, onde eu vou conseguir chegar com ética e moral? Não sei mesmo e acompanhando os exemplos que são vistos todo dia pelos meios de comunicação, acho que eu só vou ter algum futuro interessante se mudar minha postura e agir com malandragem. Como já dizia Bezerra da Silva: “malandro é malandro e mané é mané”. É a triste realidade brasileira e hoje eu sou um mané.

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4 Comentários »

Gerson Quirino
23 de abril de 2010 - 12:28

O ladrão e malandro são do povo, vieram dele e encontram nele seus reflexos. Está estampado toda a ignorância acerca dos mitos bandidos, exemplos claros é a devoção por figuras como Lampião e Che Chevara, maníacos, ladrões e assassinos. Sem falar na política. E por aí vai…

 
Gabriel Kopte
23 de abril de 2010 - 12:43

Vejo o jeitinho brasileiro acontecer ao meu redor o tempo todo. Na maioria das vezes sou excluído, taxado de politicamente correto e chato, por não participar. Eu odeio o jeitinho brasileiro e acho que ele destrói o Brasil. As vezes eu me sinto um E.T..

 
24 de abril de 2010 - 00:41

Este seu posicionamento remete um pensamento de Rui Barbosa que é o seguinte:

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

 
Herbert Jucá
25 de abril de 2010 - 11:52

Calma gustavo.. que revolta é essa? hahahah. Você vai chegar onde você quer.. atingir seus objetivos sendo “certinho” mesmo. Mas também ser correto não quer dizer ser trouxa, e deixar que os outros te passem pra trás.

 
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