Eu vim com a Nação Zumbi

Por Gerson Quirino em 19/04/2010 às 15:00

As poucas revoluções musicais no Brasil foram suficientes para nos revelar vários nomes que são considerados ícones representantes de nossa música. Como um movimento orquestrado de vários artistas, carregando motivações político-culturais, vimos nascer o Samba, a Tropicália, os antigos festivais de música que originaram a MPB, a Bossa Nova e outras tantas de menor expressão. Nessa leva, conhecemos Noel Rosa, Adoniran, Cartola, Chico Buarque, Caetano, Gil, Elis Regina, Tom Jobim, Rita Lee e vários outros que não caberiam aqui.

Porém, venho escrever aqui sobre outra revolução. A revolução feita por uma orquestra de um homem só. Um homem que influenciou uma nação da qual apelidou de zumbi, como o dos Palmares ou os mortos-vivos mesmo, simultaneamente e, em análise surreal, numa antítese simétrica entre tão vivos e quase mortos. Assim, Chico Science nos apresenta o Movimento Mangue ou Manguebeat, como queira.

Chico era um menino da periferia de Olinda, catador e vendedor de caranguejos. Movido pelo caos social a sua volta, se aproximou das obras do geógrafo social Josué de Castro pra tentar entender e minimizar sua realidade. Ao ler o exemplar de Homens e Caranguejos (1967) teve certeza que a lama era mesmo o seu lugar e nela uniria o som das alfaias do maracatu ao do overdrive da guitarra de Lúcio Maia, criando um som único até então. Teve grande ajuda de Fred Zero Quatro, Renato L., Roger e outros amigos.

Era o início da década de 90 e da banda Chico Science & Nação Zumbi. Um som pesado, que fazia vibrar o peito e deixava maluco o público que ia ao show e não encontrava disco gravado em lugar nenhum. Chico Science trouxe a ruptura de paradigmas que há muito não se via na música brasileira. Música pernambucana era sinônimo de forró, frevo ou o baião de Gonzaga. Em 94 foi lançado o seu primeiro trabalho. Da Lama ao Caos virou referência pra quem cantava a cultura pernambucana e criticava a sociedade e sua dinâmica cruel. Com músicas de pulso forte (seria de uma injustiça sem igual nomear as melhores), Chico abria os olhos do país para sons produzidos na lama da Manguetown, que era o quintal de sua casa. Afrociberdelia, lançado em 96, veio como presente pra todos que já escutavam a banda e só fez consolidar o potencial da Nação Zumbi.

“Cheguei com meu universo e aterriso no seu pensamento. Trago a luzes dos postes nos olhos, rios e pontes no coração, Pernambuco embaixo dos pés e minha mente na imensidão.”

Era a realização do sonho do Chico com raízes profundas. Do Chico que queria fazer um som tão rico quanto à biodiversidade dos mangues. Do sonho que deu seus primeiros passos em mesas de bares na Rua da Moeda ou na soparia de Roger.

Chico já se foi há 13 anos, mas deixou a Nação Zumbi como consolo a uma legião de caranguejos órfãos, que, no peito, ainda sente a constante saudade da batida do seu imortalizado maracatu atômico.

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2 Comentários »

Nadja
19 de abril de 2010 - 21:24

“Eu vim com a nação zumbi!!” A gente se arrepia lembrando quando Chico falava isso!
Do caramba esse, Gerson. Chico Science era o cara mesmo!

 
Joazinho trinta
20 de abril de 2010 - 08:23

Foda! Chico foi uma grande perda! Salve Chico! Salve Nação!
Abs

 
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