A banda perdida

Por Gerson Quirino em 28/12/2011 s 17:48

Há mais mistérios no mundo da música do que supõe a nossa vã filosofia, dizia Tom Capone. Muitos deles são tratados com o misticismo inerente a toda grande história e causaram, justamente por isso, grande impacto no imaginário coletivo ao longo dos anos. Há quem diga, por exemplo, que Elvis está bem vivo em alguma fazenda nos arredores de Buenos Aires ou mesmo que o beatle McCartney foi substituído por um sósia, após sua morte num acidente de carro, em 1966. O que trago aqui, porém, trata-se de algo mais simples e com uma dose bem menor de teorias mirabolantes.

Colombus, Ohio, década de 1970. Clem Price era o proprietário do Harmonic Sounds, um pequeno estúdio de música do qual ganhava a vida através de gravações e divulgação de bandas de sua região. O Soul e o R&B eram a tônica dos Estados Unidos desde o início dos anos 50, mas Price, por uma dessas desventuras, nunca teve grande êxito como produtor. O Harmonic Sounds fechou suas portas e Price amargou muitos anos de solidão e silêncio. Após sua morte, em 2006, diversas caixas com materiais do antigo estúdio foram leiloadas na transferência de sua propriedade. Entre os materiais de produção e milhares de discos e fitas de bandas antigas, havia uma com etiqueta escrita a lápis, quase apagada, com o nome “Penny & The Quarters”. A fita foi arrematada por um musicólogo que ficou encantado com as músicas sem produção prévia, vinda de uma guitarra crua, dedilhada, profunda e uma voz cantada por quem não se podia identificar o gênero e idade. Bastante intrigado e a fim de encontrar maiores referências sobre a banda, levou a fita para a Numero Group, produtora de bandas e especialista em identificação autoral de músicas antigas. Ninguém sabia identificar a banda. Kim Shipley, diretor da empresa, afirma já ter reproduzido as faixas pra mais de 100 executivos e músicos da época, fizeram audições públicas em busca de qualquer referência, mas não obtiveram sucesso.

Em 2004, uma das três canções da fita, intitulado “You and Me”, foi posta numa coletânea de Soul com o selo da Number Group. O disco não vendeu quase nada, mas foi suficiente para que o ator Ryan Gosling escutasse e se apaixonasse pela faixa. Gosling recomendou ao diretor Derek Cianfrance que colocasse a música em seu novo filme. Blue Valentine (2010), filme de produção independente, foi campeão de crítica e considerado por muitos o grande injustiçado da premiação do Oscar em 2011. “You and Me” despertou interesse em quase todos os expectadores, que, assim como eu, foram atrás de maiores referências sobre a banda e encontraram apenas essa história: música e mistério de uma banda perdida no tempo.

Um salve, então, a Penny & The Quarters e tudo o que eles representaram em seu anonimato poético.

O diário de Bruninho – na Praia

Por Gustavo Massud em 16/12/2011 s 5:31

Fui dar uma corrida na praia hoje e encontrei um menina linda, lendo alguma coisa deitada na areia. Fiquei encantado, não encontro muitas meninas lendo na praia. Na verdade, lendo eu não encontro nem uma feia, quanto mais bonita. Era uma oportunidade única, provavelmente a futura mãe dos meus filhos.

Fui abordá-la utilizando todo meu charme pitoresco.

- Que calor não? (Aprendi em algum lugar que iniciar o flerte com um comentário sobre o clima sempre é um bom começo).

Ela me olha com a hostilidade que é peculiar a mulher recifense.

- É, né!? Praia e tal…

Massa, eu captei a ironia. A vontade que eu tinha era de responder: “Bitch please, você nunca foi numa praia européia?” Eu nunca fui, mas ouvi dizer que tinham umas praias lá que eram um frio de rachar. Só que eu não podia falar aquilo, precisava conquistar a garota. Fui direto pro Round 2.

- Então, você vem sempre aqui?

Ela parecia mais aborrecida agora. Não acreditou que falei aquilo. Eu também não acreditei no que saiu da minha boca, mas já era tarde demais.

- Não, só quando faz sol!

Eu merecia aquela resposta. Puta pergunta idiota do cacete! Só que se ela estivesse com boa vontade poderia ter contextualizado. Entenderia que eu perguntava se ela ia sempre naquele mesmo lugar, horário e etc. Além do mais, a não ser que ela seja barraqueira de praia, provavelmente não vai estar lá toda vez que fizer sol.

Fui definitivamente ao que interessava, onde eu poderia expelir todo meu conhecimento cultural sobre a vida, o ser humano, o mistério do universo e tudo mais. O que se limita a um artigo de duas páginas, se um dia eu precisar escrever.

- E aí, o que você tá lendo?

Ela dessa vez pareceu se empolgar e eu me empolguei junto, foi uma empolgação só!

- Ahh, é lindo! Crepúsculo. Sabe que eu tô na parte em que Edward e Bella se casam e…

Interrompi o papo ali.

- Você só pode tá de sacanagem comigo!

Fui embora pra minha corrida. E senti como se minha busca pela alma gêmea ainda estivesse bem longe de ser encerrada.


…Mata a alma e envenena

Por Gerson Quirino em 01/11/2011 s 21:12

Ela me traiu.

Assim mesmo, sem muitos rodeios.

Eu lavava os pratos no exato momento em que ela abria a boca, do outro lado da cidade, ao sentir o pênis dele entre suas pernas.

Ela me traiu e ainda tornou pública a minha humilhação. Atualizou seu status no facebook.

“É bom ter um orgasmo depois de 3 anos”.

Quando ela completou 1 mês de namoro, fazia 3 semanas que tínhamos terminado.

Quando ela se disse completa pela primeira vez, eu me vi profundamente sozinho.

Não demorei a me dar por vencido. Não houve competição.

Eu moro com meus pais, estou atrasado na faculdade, ando de ônibus e bebo fanta uva no almoço.

Ainda me sinto bem, mesmo sabendo que ele tem seu próprio negócio e uma barba cerrada, que ela sempre quis que eu tivesse. Ambos.

Até que um dia teve o aniversário de um amigo em comum. Tinha muita gente na festa e o “novo- casal-feliz-de-mutiplos-orgasmos” deixou pra chegar no ápice da festa.

Todos ficaram em silêncio quando eles entraram no salão.

Ela deu um sorriso desconcertado e ele falou alto: “pensei que tivesse menas gente”.

No dia seguinte atualizei meu status.

“Eu lavo prato, mas não falo menas”.

43 pessoas curtiram isso.

Já me sentia vingado.

24 horas

Por Gustavo Massud em 01/11/2011 s 13:06

21h17 – Chego na casa dela…

21h18 – Estamos distantes, o usual nos últimos tempos…

21h21 – Ela vai assistir a novela, eu me contento com a primeira revista que encontro…

21h30 – Um silêncio fúnebre paira no ar…

21h40 – Não consigo entender o que está escrito na revista, coloco a culpa no editor…

21h50 – A novela acaba, eu finjo não notar…

21h52 – Ela vai buscar um copo d’água, eu me mantenho onde estou…

21h57 – Ela ainda não voltou da cozinha…

22h00 – Penso que já é o bastante, está na hora de ir embora…

22h01 – Ela volta com um copo d’água, gentilmente me oferece…

22h05 – O silêncio é ainda maior agora, sinto vontade de gritar…

22h06 – Ela começa a falar…

22h09 – Já estou cansado, ela não para de falar…

22h15 – A conversa finalmente chega a algum lugar…

22h18 – Resolvemos terminar a nossa relação…

22h25 – Me retiro da casa. Olho para trás, mas sigo em frente…

22h30 – O caminho de volta parece ter ficado mais longo…

22h32 – Choro durante todo o trajeto…

22h37 – Finalmente chego em casa, parece que fiz uma viagem de 6 horas ininterruptas…

22h45 – Lembro que não jantei, mas também não tenho fome…

22h50 – Vou para a página social dela na internet…

23h05 – Há 15 minutos que atualizo a página esperando ver se muda o status do relacionamento…

23h13 – Ela finalmente mudou o status para alguma coisa indefinida…

23h15 – Enjôo…

23h40 – A sigo e também faço o mesmo com o meu status…

23h41 – O primeiro amigo liga perguntando o que aconteceu…

23h42 – Sou sincero, digo que estou ótimo e não preciso de ajuda…

23h45 – Sinceridade é uma mentira…

00h00 – Finalmente resolvo ir dormir…

02h50 – Ainda acordado…

03h00 – Se eu conseguir dormir agora poderei ter 3 longas horas de sono…

03h20 – Caio no sono…

05h15 – Acordo…

05h16 – Tento voltar a dormir…

06h00 – Não consigo…

07h00 – Não tomo nada no café, ainda estou sem fome…

08h00 – Chego ao trabalho…

09h30 – Não faço nada além de pensar nela…

10h00 – Fico constrangido com o ócio e vou tentar ser produtivo…

12h00 – Hora do almoço…

12h16 – Meu prato é leve, ainda estou sem fome…

13h00 – Volto ao trabalho pensando nela…

16h25 – Recebo uma ligação…

16h26 – É um amigo dizendo ter ouvido que ela já está com outro cara engatilhado…

16h27 – Enjôo…

18h00 – Volto pra casa…

18h24 – Olho o status dela, continua indefinido…

18h45 – Tento parecer bem e publico alguma piada na minha página…

19h00 – Só três pessoas curtiram. Sinto que fracassei na piada…

19h15 – Começo a pesquisar nas páginas das amigas dela esperando descobrir quem é o cara com quem ela deveria estar…

20h20 – Não encontrei nenhuma informação relevante…

20h25 – Recorro aos meus amigos “detetives”…

20h33 – Descubro quem é o figura…

20h35 – Pela foto de perfil ele parece ser presença…

20h36 – E também deduzo que seja mais legal que eu. Ele tem 13 amigos a mais…

20h41 – Me sinto humilhado…

20h43 – Enjôo…

20h47 – Resolvo sair do PC…

20h59 – Ainda estou procurando por evidências de qualquer coisa que faça eu me sentir pior…

21h00 – Volto ao perfil do cara…

21h02 – Vou ler suas informações…

21h03 – Leio uma descrição dele em sua página. Lá ele diz: “Sou um pouco ancioso, mais espero o momento certo pra agir. Há cada vez menas gente paciente no mundo.”

21h04 – Solto uma gargalhada ao ler aquilo…

21h05 – Eu venci!

21h17 – Depois de devorar um sanduíche, durmo profundamente.

A [Dis]Função Pública

Por Gerson Quirino em 08/09/2011 s 18:03

Há algo de muito errado num país onde o setor público se torna mais atrativo que o privado na busca pelo exercício de uma atividade profissional. Ainda mais quando este país se diz regido pelo sistema de produção capitalista e, portanto, da livre iniciativa.

Talvez como a maior parte dos problemas coletivos, este também tenha suas raízes fincadas na formação da sociedade brasileira. A miscigenação cultural do nosso país tem seus vieses negativos, e alguns deles são a flexibilidade de caráter e o déficit na consolidação de uma identidade coletiva.

O Japão, por exemplo, é unido pelo sentimento de honra. Os Estados Unidos, pelo orgulho. A moral alemã é um elo fortíssimo, enquanto os franceses têm unidade através do patriotismo. Nós, brasileiros, somos tão desiguais que nosso ponto mais comum também é o pior deles: a malandragem, reconhecida pelo mundo e vangloriada apenas por nós, malandros da nação tupi.

A falta desse senso coletivo estimula, para não desviar o foco, a procura desenfreada em maximizar a relação esforço/recompensa. O que acontece hoje no Brasil é a lei do mínimo esforço aplicada ao mercado de trabalho. Se eu posso ter muito, fazendo menos, por que me esforçar mais? É até um ponto instintivo, confesso. O fato é que, bem distante do comodismo e inércia behavioristas, existe o que a economia chama de força-motriz de qualquer nação: a iniciativa privada, que não permite nem de longe a prática dessa lei.

Em essência, a influência do Estado sobre o capitalismo é quase nula. Sabemos, no entanto, que não existe tal grau de pureza nesse sistema e que o Estado desempenha papel fundamental na estruturação, controle e regência das leis que dão direção ao mercado. Note bem, o Estado aponta a direção, mas em hipótese alguma pode ditar como será realizado o percurso. Logo, a natureza do Estado é de apoio e não de intervenção.

A pergunta que faço é simples: será que é normal uma atividade de apoio ser mais atrativa quanto aos salários, benefícios e carreira que uma atividade que move a economia?

Não, não é. É fato que o Estado precisa de pessoas qualificadas e empenhadas em suas funções, principalmente nos serviços essenciais como a saúde, segurança e educação (que, por sinal, são os menos beneficiados pela máquina pública). O argumento principal não está no número de servidores no funcionalismo público, a problemática central se dá em dois focos basilares: a média salarial e a produtividade.

O salário médio de um funcionário público no Brasil é exorbitante. A remuneração das chamadas atividades-meio (auditores, fiscais e analistas) cresceu de forma exponencial nos últimos 10 anos. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em relação à população ativa, o nosso país tem quase a metade dos funcionários públicos quando comparado à média dos seus 31 países membros. No entanto, a despesa de cunho remuneratório chega a ser 5% maior aqui no Brasil. Pela matemática básica, o nosso funcionário público recebe quase o dobro do que os de outros países. Isto definitivamente não está certo e é parte de um cenário propício a um lapso produtivo a médio e longo prazo.

Como explicar essa distorção se, pra piorar ainda mais, a produtividade na iniciativa pública tende a ser menor e mais lenta que na iniciativa privada?

Um dos fatores é bem claro: estabilidade garantida em lei após o estágio probatório. Essa disfunção danosa à produtividade de qualquer natureza é caso de estudo internacional. Nós, brasileiros, somos os únicos a garantir isso em constituição. Em suma, o profissional não pode ser demitido sob a ótica da administração privada. A estabilidade gera acomodação, que gera, inerentemente, improdutividade.

Não contente por sermos pioneiros nesse quesito, também somos singular na modalidade de aposentadoria integral. Em nenhum outro país o trabalhador aposentado recebe o mesmo que recebia na vida ativa. O rombo na economia não parece estar claro, mas vou explicar melhor. Vamos aos fatos, então.

Em 2010, data do último levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), apenas os servidores federais contribuíram com a previdência com um montante de R$ 22,5 bilhões e foram responsáveis por um gasto de R$ 73,7 bilhões. Quem arca com déficit? Os cofres públicos, enquanto não compromete a saúde financeira do país no curto prazo. Se esse ritmo continuar, e tudo indica que não teremos redução, esses encargos serão transferidos à maior fonte de renda do Estado: o contribuinte, que já anda até o pescoço com uma das maiores cargas tributárias do mundo.

Em outras palavras, quando comparamos os beneficiários do regime próprio da previdência do funcionalismo federal (também tendo como contribuinte todos os trabalhadores brasileiros) ao Regime Geral da Previdência, aqueles inscritos no INSS, o funcionário público custa aos contribuintes uma bagatela de 2.900% a mais que um trabalhador da iniciativa privada.

Sem contar os custos diretos (gratificações, comissões, assessorias, nomeações, cargos com até 60 dias de férias e recesso remunerado), a iniciativa pública também cessa a produtividade na iniciativa privada. Ao todo, estima-se que quase um milhão de jovens recém-formados estão apenas estudando pra concursos. Não dá pra calcular o impacto dessa improdutividade na economia.

O que está em cheque nisso tudo é o desenvolvimento do país. Seja por disfunção previdenciária, por desaceleração da economia causada pela alta dos tributos, pela falta de profissionais qualificados no setor privado ou pela formação de uma massa burocrática ineficaz e lenta, que se consolida no serviço público do Brasil. Estamos ignorando o empreendedorismo e a inovação em busca de uma estabilidade que não garante realização profissional e este é o caminho mais curto para a recessão de uma economia que se limita pela simples falta de incentivo ao crescimento.

Nunca se sabe o número preciso daqueles que pensam em ingressar ou já estão no setor público por vocação profissional e vontade de transformar o país em prol da coletividade, objetivo maior de qualquer servidor público. O que se percebe, no entanto, é que esse número é bem menor do que o país realmente precisa. Uma lástima, já que essa minoria, quando não corrompida, pode fazer a diferença que se espera. Enquanto isso, a maioria aleivosa e esclarecida permanece deitada eternamente no berço esplêndido do comodismo funcional, comprado com o dinheiro dos filhos deste solo, que não fogem à luta porque são obrigados a lutar, mesmo quando o cenário é assim tão desleal.

Apelo

Por MAIS QUE NADA em 18/08/2011 s 14:36

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

Dalton Trevisan

Ontem

Por MAIS QUE NADA em 06/06/2011 s 13:35

Por Fábio do Inter:urbanos

Ele desligou a tevê. Aurélio estava cansado de especiais do Dia dos namorados. Fazia mais de 20 anos que passava aquele dia sozinho. Ligou o computador, abriu o msn e só o que viu mensagens meladas. Escreveu “mulher é tudo puta” debaixo do nick e foi preparar um miojo. Ao abrir a porta do armário flagrou duas baratas copulando. Assim já era demais! Cerrou a mão e esmagou as duas filhas-da-puta com o punho.

Aquilo mexeu com ele. Sentiu-se bem, mais leve. O assassinato dos insetos acordou um monstro de raiva e frustração que morava dentro dele. Nem lavou as mãos. Pegou um revólver e se dirigiu ao Outback. O lugar estaria lotado de casaizinhos comemorando sua data imbecil.

- Olá! Bem-vindo ao Outback! Você vai enfrentar uma pequena filinha! Qual o seu nome?

Ele rosnou um nome qualquer em resposta.

- Mesa para dois?

Aurélio olhou a mulher com uma cara tão feia que ela não perguntou e nem pediu mais nada. Entregou um dispositivo eletrônico de senha e avisou:

- Em torno de 40 minutos, vamos chamar você!

Ele pos o trambolho no bolso e foi dar uma volta pelo shopping center. No caminho, esbarrou com uma garçonete.

- Você quer provar nosso maravilhoso Awesome Blossom ™?

Aurélio esticou a mão e catou meia dúzia de pétalas da cebola empanada. Nem agradeceu.

Mais de uma hora e meia depois e nada de chamarem sua senha. Pegou o trambolho e jogou na primeira lata de lixo que viu. Foi para casa. Não matou ninguém. Tinha pego na cebola com a mão suja de barata. Já se sentia vingado.

Fica, vai ter boato!

Por MAIS QUE NADA em 06/05/2011 s 15:38

Por Téta Barbosa no Batida Salve Todos

Conseguimos mais um feito histórico: somos agora, oficialmente, a cidade mais boateira do MUNDO! Não basta ter o melhor carnaval, a maior avenida, o maior shopping, o maior bloco. Temos agora o maior boato!

- Alô, filha? Você está onde?

- No carro indo pro shopping.

- Volte AGORA! Vá pra casa! A barragem de Carpina transbordou, o nível do Capibaribe subiu e às 17:15, exatamente (meu pai sempre foi pontual), teremos maré alta. Isso significa muita água.

Dei meia volta (acreditar no pai é prerrogativa fundamental para sobrevivência familiar) enquanto meu telefone tocou de novo.

- Alô, irmã? Tais onde?

- Já sei. É pra ir pra casa.

- Não! É pra ir pro TWITTER agora. O boato se espalhou e as frases estão impagáveis. #adoroboato

Quando eu cheguei em casa, o mundo já tinha se acabado (segundo o twitter). Carpina já tinha virado Tapacurá, a cidade estava alagada e a arca de Noé já estava vendendo passagens antecipadas (com saída prevista para as 17:15 precisamente). Uma onda de 30 metros se aproximava do Shopping Plaza (que, por este mesmo motivo fechou suas portas às 16h). Pânico, correria e confusão (imagine no dia que o Shopping Recife fechar, dizia@jeufigueiroa).

As empresas começaram a liberar seus funcionários (essa parte não é boato). Escolas fecharam, faculdades cancelaram as aulas, reuniões foram remarcadas, as linhas telefônicas ficaram congestionadas. Isso tudo antes da maré alta.

Resultado: o maior engarrafamento que o Recife já viu na vida (olha aí, temos outro record).

Agamenon transbordou (de carros). Os canais encheram (de lixo) Recife alagou (de boatos).Tapacurá explodiu (no trending topics).

Sim, no Trending Topics internacional só dava Tapacurá. Imagina o gringo, que toma conta do Trending Topics se perguntando:  “Que porra é Tapacurá? Será um novo jogador da seleção brasileira?”

Enquanto isso, @lusenalto avisava: “Acharam o corpo de Bin Laden boiando no canal da Agamenon após inundação” . A “notícia” foi confirmada pelo jornalista @santoskk que dizia com convicção ” Casa Branca confirma: corpo de Bin Laden não foi jogado ao mar, mas nas correntezas do Capibaribe” e pra completar, nossa presidenta Dilma anunciava a criação do BALSA-família para Recife!

Calma, calma, isso tudo faz parte da ação de marketing da COMPESA, que assim como a Prefeitura tem o lema: A gente faz, depois a gente mostra! Então? A gente não prometeu água e esgoto em TODO o RECIFE?

O jornalista @joaovaladares (que assim como @santoskk) já tinham aderido ao movimento #assumaseuboato , clamava por um posicionamento do Prefeito.  “João da Costa, vai que é tua. Olha a chance de aparecer e salvar seu mandato”.

João da Costa? E ele existe? Nessa confusão, eu podia jurar que ele era mais um boato!

Ou sei lá, depois de Madrid soube que ele foi visto no casamento de Kate e William e de lá seguia para a missa de sétimo dia de Bin Laden.  Sabe como é, esse pessoal político é muito ocupado com essas coisas importantes. Eles não tem tempo pra ficar twittando boato de enchente,né?

@santoskk, pra acalmar os ânimos avisou em off ( e entre aspas, porque já era um RT)  :  “Não diz p ninguém p não gerar pânico, mas tá dando um metro de água na Igreja da Sé.”

E o #assumaseuboato bombava nos trends de Raincife.

O pobre do @carlospercol (PercolMeuFilho, para os íntimos – que é assessor de imprensa do Governador Eduardo Campos, amigo de infância do meu irmão e o nome do peixe do meu filho)  suava (eu imagino)  e twittava sem parar : “A situação está sob controle. O Governador avisa que não há motivo para pânico. Tapacurá (mas não era Carpina? ) está funcionando normalmente”.

Percol, meu filho, a gente só quer saber se Eduardo é ou não é filho de Chico Buarque! Ele vai falar sobre isso na coletiva?

Fora do twitter, na vida real, o engarrafamento tomava proporções épicas. Tudo parado! No rádio tocava sem parar “Tomar banho de canal quando a maré encher” (versão de Nação Zumbi porque, por mais que Fabinho seja gatinho, é desafinado que dói).

E o boato crescendo, e o boato crescendo . As compotas da barragens de Carpina vão estourar a qualquer momento!

- Pessoal, quem tem COMPOTA é doce de goiaba, ok?, ensinava @williampaiva

Nunca, em toda minha vida, tive tanta pena de jornalista. A pobre da @clagoes twittava aflita: “é boato, é boato” e dava, como boa jornalista, informações (daquelas, de verdade). Alguém queria ouvir? Claro que não! @realejo inclusive sugeriu: “se a gente continuar o boato até amanhã de manhã, vai ter feriado prolongado em Recife” #assumaseuboato

Meu medo começou quando os amigos (vários) avisaram : estamos indo pra tua casa. O boato é que Aldeia é o único lugar que não vai alagar!

O que eu posso dizer, além de: “alguém traz a cerveja, por favor”

Agora sério: pra quem não é de Recife e não entendeu porra nenhuma desse post, eu explico! Em 1975 (na era pré twitter) surgiu um boato (dos grandes) que a recém inaugurada Barragem de Tapacurá havia estourado e que, uma onda de mais de 30 metros iria destruir o Recife. Pânico é pouco pra descrever a confusão. Histórias hilárias (hoje, porque no dia foram trágicas) surgiram desse desespero coletivo. Toda reunião familiar que se preze, depois de algumas cervejas, sempre acaba com as narrativas do dia que a represa não explodiu! Isso virou até filme (dirigido por Nelson Caldas), piada, conto, música.

No fundo, dá até um alívio ter participado do boato de hoje. Pelo menos vou ter o que contar para meus netos!

- Oxe Téta, esse blog não é sobre moda?

- Mas, se Tapacurá tá no TRENDING TOPICS internacional, é porque tá na moda!

Ah, quase que eu ia esquecendo: não alagou, não chuveu, não transbordou.  Agora, se Dudu é ou não filho de Chico Buarque, isto ainda não está devidamente esclarecido!

O destino da UFPE nas Eleições para Reitor

Por MAIS QUE NADA em 22/04/2011 s 13:17

Na próxima terça-feira, dia 26 de abril, ocorrerá o primeiro turno das eleições para Reitor da Universidade Federal de Pernambuco.

Este é um assunto que não diz respeito apenas aos que estão diretamente ligados à Universidade, mas a todo cidadão pernambucano, já que, em sua essência, esta instituição tem um papel social fundamental: transformar pessoas e fazer delas agentes efetivos na construção de uma sociedade mais forte e preparada para enfrentar suas mais diversas falhas.

A escolha de um reitor de uma instituição que forma profissionais de inúmeras áreas de atuação, que desenvolve pesquisas científicas cujos resultados são basilares ao fomento e disseminação do conhecimento – em Pernambuco e no Brasil – requer muito mais que uma simples análise política de seus candidatos.

A última pesquisa divulgada apontou empate técnico entre os candidatos Anízio Brasileiro, 56, e Pierre Lucena, 39, por isso, é sobre estes dois que daremos foco principal. Ao adotarmos uma postura prévia imparcial, que nos permitiu analisar o passado dos dois candidatos e acompanhar as campanhas desde suas primeiras movimentações, este blog, colunistas e editores, decidiu apoiar o candidato Pierre Lucena, que faz parte do Movimento Nova UFPE. Os fatos que nos levaram a isto estão logo a seguir:

Anízio Brasileiro é o candidato da situação, tem o apoio do atual reitor Amaro Lins e prega a continuidade da gestão como via para o progresso da Universidade. Se não acompanhássemos o cotidiano da UFPE na última década, o discurso polido do candidato Anízio se tornaria a consolidação de um quadro extremamente favorável à continuidade desse tal progresso. O que percebemos, no entanto, é muito diferente do que a campanha da situação tenta mostrar.

Nos últimos oito anos, o reitor Amaro Lins conduziu à UFPE por um caminho que tirou, a cada passo, um pouco da voz da instituição frente à sociedade pernambucana e às diversas academias. O atraso da estrutura e dinâmica interna da UFPE é gritante em relação a outras Universidades Federais não tão distantes daqui. O que se vê ainda hoje é uma massa burocrática que impede o desenvolvimento do ensino, pesquisas e extensão, que é, antes de qualquer coisa, missão de toda Universidade Federal.

Já se tornou perene o descaso com atividades tão basilares à UFPE, que, aos poucos, técnicos, professores e estudantes deixam de lado o orgulho de ser parte disso.

  • Falta de segurança no campus, má iluminação, controle de acesso e vigilância remota inexistente;
  • Excesso de professores temporários, que na maioria dos casos não tem conhecimento suficiente e/ou compromisso com o ensino;
  • Salas de aulas sucateadas, sem projetores, quadros e cadeiras em péssimo estado de conservação, sem climatização;
  • Burocracia excessiva pra qualquer procedimento interno;
  • Falta de apoio aos estudantes que permanecem em tempo integral na Universidade, Casa do Estudante superlotada e sucateada, Restaurante Universitário inacessível e inaugurado só após anos de exigência;
  • Obras paradas e inacabadas por todo o campus;
  • Cursos de graduação sendo rebaixados em avaliações nacionais;
  • Desvio de atividade funcional, professores e bolsistas executando trabalhos de técnicos;
  • Completo abandono dos centros acadêmicos, impedindo a integração do conhecimento produzido;
  • TV e Rádio Universitária abandonados;
  • Falta de maior integração dos programas de intercâmbio universitário;
  • Descaso com programas de carreira e benefícios aos funcionário e técnicos;

Enfim, é esse progresso realizado pelo reitor Amaro Lins que o candidato Anízio Brasileiro quer dar continuidade. “Consolidar e inovar” é o tema de sua campanha, dois termos antagônicos entre si, considerando todo o contexto que hoje se encontra a Universidade.

Em meio a tudo isso, o coordenador do curso de Administração do Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA), parece agir na contramão do caminho percorrido por toda a desgastada máquina administrativa. Pierre Lucena fez uma pequena e notória revolução como coordenador, ganhando respeito de todos os que fazem parte do CCSA.

Por dois anos consecutivos (2009-2010) o curso de Administração foi eleito o melhor curso do país na área de administração e negócios, pelo Guia do Estudante da Editora Abril. As salas de aula do curso de administração estão quase todas climatizadas, a assiduidade e comprometimento dos professores é notória, como nunca antes. Hoje existe constante sinergia entre o curso de administração e as empresas locais, bem como apoio a iniciativas independentes, como a empresa júnior, ACE Consultoria, que ganha cada vez mais espaço ao integrar teorias e práticas de mercado.

São atitudes que dependem muito mais da vontade de transformar o meio, que de esperar que a mudança seja fruto espontâneo de uma estrutura que caminha a passos lentos.

Pierre Lucena, um ar de renovação na UFPE.

Pierre Lucena tem uma história de gestão bem maior que a sua idade sugere. Já foi presidente do Diretório Central de Estudantes da UFPE, liderou vários movimentos estudantis em prol de uma universidade melhor. Fez parte do Conselho Universitário, foi eleito delegado da UNE (União Nacional dos Estudantes) com a maior votação da UFPE, foi Secretário de Planejamento e Secretário-Adjunto de Educação do Estado de Pernambuco. É professor formado pela UFPE, tem doutorado em finanças pela PUC-RJ e possui trabalhos acadêmicos publicados no Brasil e no exterior.

O que parece ser mais importante em todo seu currículo são sua idéias simples para combater problemas que existem há décadas na Universidade. Por conhecer de perto como funciona a dinâmica funcional, é difícil não se perguntar o porquê de nada ter sido feito anteriormente, ao passo que as soluções parecem ser tão óbvias. Talvez o simples fato de reconhecer as falhas existentes seja o ponto de partida para coibi-las no futuro. O que se percebe, no entanto, é que nada foi feito nesse sentido nos últimos anos e esse “faz de conta” reflete diretamente no desempenho de toda a comunidade acadêmica.

Não há mais espaço para mais do mesmo. A UFPE precisa de uma renovação profunda e tudo indica que o melhor nome já esteja escolhido. À frente de uma campanha muito mais preocupada em propor soluções que a atacar o seu principal oponente, Pierre Lucena ganhou força exponencial nos últimos dias em todas as esferas eleitorais. Como o voto é paritário, estudantes, técnicos e professores terão o mesmo poder em apontar o caminho que a Universidade percorrerá pelos próximos quatro anos.

Talvez, no fundo, seja um exagero, mas na modesta opinião desde blog, desde o fim da ditadura militar em nosso país, a Universidade Federal de Pernambuco não tem – como terá na próxima terça-feira, dia 26 de abril – um papel social tão importante: decidir se irá prosseguir na inércia do comodismo burocrático ou levantar âncora e partir para o desenvolvimento da nossa Universidade.

O Mais Que Nada apóia Pierre Lucena porque acredita que é possível fazer uma Nova UFPE.

Rei de Quem?

Por Gerson Quirino em 20/04/2011 s 11:17

Nos últimos dias, grande parte da mídia vem noticiando o aniversário do cantor Roberto Carlos como se fosse um acontecimento realmente importante em minha vida. Sinto muito dizer, mas eu consegui dormir numa boa nos últimos anos só me dando conta que ele estava vivo em dezembro, quando ele aparece como o bom velhinho no especial de natal da TV. Não seria agora, que nossa majestade completa 70 anos em cada perna (sim, ele só tem uma perna), que as coisas mudariam.

Já não bastasse o coro em uníssono soar a mim de forma muito estranha, essa ode a ídolos, digamos, contestáveis, faz com que eu seja repelido com mais força à obrigação súdita de prestar as devidas reverências reais nesta data a mim desimportante.

Apesar das muitas críticas – sobretudo musicais – me atenho ao passado político do nosso ilustre monarca, que preferiu, assim como os meios de comunicação que hoje tocam as trombetas por sua septuagésimo primavera, se omitir num passado bem negro de nosso país.

Algumas verdades precisam ser ditas e, como já fizeram isso melhor do eu, segue o texto extraído do site Direto da Redação.

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Roberto Carlos e a Ditadura

As datas, os aniversários, têm um poder evocativo muito forte. Esta semana me veio de súbito uma pergunta: que música seria mais representativa do golpe militar de 64? Quais canções, que músico seria mais representativo daqueles anos inaugurados em um primeiro de abril?

Num estalo me veio que Roberto Carlos deve ter sido o compositor mais representativo da ditadura. Não sei se num curto espaço conseguirei ser claro. Mas tento. Os mais velhos sabem que a lembrança daqueles anos muito tem a ver com os rádios, em todos os lugares, tocando

“De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar
se você não vem e eu estou a lhe esperar
só tenho você no meu pensamento
e a sua ausência é todo meu tormento
quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno”

Quando Roberto Carlos explodiu os rádios do Brasil, ele cresceu em um programa que arrebentou em 65. O programa Jovem Guarda se opunha ao O Fino da Bossa, com Elis. Enquanto O Fino da Bossa fazia uma ponte entre os compositores da velha guarda do samba e os compositores de esquerda, o Jovem Guarda…

“Eu vou contar pra todos a história de um rapaz
que tinha há muito tempo a fama de ser mau..”

“O Rei, o Rei não tem culpa…”, diz-nos um senhor encanecido, ex-jovem guarda (e como envelheceu a jovem guarda!). “O Rei não tem culpa…”. Sim, compreendemos: quem assim nos fala quer apenas dizer, Roberto Carlos não teve culpa de fazer o medíocre, de falar aos corações da massa jovem daqueles anos. À juventude alienada, mas juventude de peso, em número, que ganha sempre da minoria de jovens estudiosos. Que mal havia em falar para a sensibilidade embrutecida mais ampla? É claro que ele não teve culpa de macaquear a revolução musical dos Beatles em versões bárbaras, em caricaturas dos cabelos longos, alisados a ferro e banha, para lisos ficarem como os dos jovens de Liverpool.

Mas é sintomático nele a passagem de cantor da juventude para o “romântico”. Essa passagem se deu na medida em que os jovens de todo o mundo deixaram de ser apenas um mercado de calças Lee e  Coca-Cola, e passaram a movimentos contra a guerra do Vietnã, até mesmo em festivais de rock, como em Woodstock. Ou, se quiserem numa versão mais brasileira, o Rei Roberto se torna um senhor “romântico” na medida em que as botas militares pisam com mais força a vida brasileira. Ora, nesses angustiantes anos o que compõe o jovem, o ex-jovem, que um dia desejou que tudo mais fosse para o inferno? – Eu te amo, eu te amo, eu te amo…

É claro que a passagem do Roberto Carlos Jovem Guarda para o senhor “romântico” não se deu pelo envelhecimento do seu público. De 1965 a 1970 correm apenas 5 anos. O envelhecimento é outro. Nesses 5 correm sangue e raiva da ditadura militar, no Brasil, e crescimento da revolta do público “jovem”, no mundo. Enquanto explodem conflitos, a canção de Roberto Carlos que toca nos rádios de todo o Brasil é “Vista a roupa, meu bem” (e vamos nos casar). Se fizéssemos um gráfico, se projetássemos curvas de repressão política e de “romantismo” de Roberto Carlos, veríamos que o ápice das duas curvas é seu ponto de encontro.

Enfim, o namoro do Rei Roberto Carlos com o regime não foi um breve piscar de olhos, um flerte, um aceno à distância. O Rei não compôs só a música permitida naqueles anos de proibição. O Rei não foi só o “jovem” bem-comportado, que não pisava na grama, porque assim lhe ordenavam. Ele não foi apenas o homem livre que somente fazia o que o regime mandava. Não. Roberto Carlos foi capaz de compor pérolas, diamantes, que levantavam o mundo ordenado pelo regime. Ora, enquanto jovens estudantes eram fuzilados e caçados, enquanto na televisão, nas telas dos cinemas, exibia-se a brilhante propaganda “Brasil, ame-o ou deixe-o”, o que fez o nosso Rei? Irrompeu com uma canção que era um hino, um gospel de corações ocos, um som sem fúria de negros norte-americanos. Ora, ora, o Rei ora: “Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui”.

Os brasileiros executados sob tortura não estavam com Jesus. Nem Jesus com eles.

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