O Óbvio Ululante

Por Gerson Quirino em 24/08/2010 às 10:59

Se estivesse vivo, o recifense mais carioca que existiu, completaria ontem (23.08) 98 anos. Criador de polêmicas constantes, Nelson Rodrigues, a quem aponto sem medo como um dos maiores escritores brasileiros do século passado, tinha uma relação bem particular com o universo feminino, a política e o futebol. Talvez tenha sido esses os motivos de sua literatura servir de inspiração a músicos e artistas em geral (que o diga Chico Buarque). Paixão, sexo, pecados, crimes e a moral às avessas foram sempre seus temas principais. Obras como O óbvio Ululante (1968) e A vida como ela é (1972) são referências de ótimas leituras.

“O amor entre marido e mulher é uma verdadeira zona. É degradante que um homem deseje a mãe dos seus próprios filhos.”

Nelson Rodrigues explicando as traições

Reproduzo abaixo um dos contos que eu mais gosto, dentre tantos outros tão bons quanto este.

A DAMA DO LOTAÇÃO

Às dez horas da noite, debaixo de chuva, Carlinhos foi bater na casa do pai. O velho, que andava com a pressão baixa, ruim de saúde como o diabo, tomou um susto:

— Você aqui? A essa hora?

E ele, desabando na poltrona, com profundíssimo suspiro:

— Pois é, meu pai, pois é!

— Como vai Solange? – perguntou o dono da casa. Carlinhos ergueu-se; foi até a janela espiar o jardim pelo vidro. Depois voltou e, sentando-se de novo, larga a bomba:

— Meu pai, desconfio de minha mulher.

Pânico do velho:

— De Solange? Mas você está maluco? Que cretinice é essa?

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Por que cinema?

Por Gustavo Massud em 17/08/2010 às 11:37

Eu gosto de cinema porque eu posso destruir o nazismo com um atentado, numa sessão de cinema.

Eu gosto de cinema porque eu acredito que o mundo é controlado por máquinas e tudo o que nós vivemos não passa de mera ilusão.

Eu gosto de cinema porque o nerd da escola pode, enfim, conquistar a garota dos seus sonhos.

Eu gosto de cinema porque eu posso viajar ao futuro, ou ao passado e refazer o meu presente.

Eu gosto de cinema porque meu pai é o poderoso chefão e eu sou o próximo na linha de sucessão.

Eu gosto de cinema porque meu carro pode virar um robô gigante e salvar o mundo da ameaça alienígena.

Eu gosto de cinema porque acredito no amor à primeira vista, mesmo que ele não exista.

Eu gosto de cinema porque me faz sonhar e, acima de tudo, me faz acreditar nesse sonho.


Sobre começos e fins

Por Gerson Quirino em 05/08/2010 às 11:53

O homem é por natureza um animal social. Esta frase de Aristóteles é o ponto de partida para o que eu quero expressar. A inerente condição humana de interação social faz com que muitas vezes não saibamos como nos portar diante dos momentos de ruptura deste processo. Numa linguagem mais clara, não sabemos, e provavelmente nunca saberemos, dizer adeus.

A separação de qualquer relação afetiva é cercada de paradoxos, o que a torna complexa demais para ser entendida com simplicidade. Talvez um dos maiores mistérios criados por nossos sentimentos seja a dor da separação e o sofrimento dos lados envolvidos.

Mas porque a tristeza faz parte de todo rompimento?

Alguns estudos indicam que ela é um simples mecanismo de defesa de nossa mente, que nos alerta sobre a proximidade do nosso comprovado maior medo: a solidão.

Sofremos para que tenhamos medo das separações, que nos deixa cada vez mais solitários. Sabemos, é claro, que nem toda separação significa que ficaremos sozinhos, mas leva um pouco de tempos até que a nossa mente se acostume com a idéia. O filme sombrio acerca da solidão move pesadelos comuns a todas as pessoas. A solidão foi poetizada como o verdadeiro mal do século.

Por outro lado, se dependesse de nossos instintos a vida seria uma inércia absoluta, porque somos naturalmente resistentes a qualquer tipo de mudança. Neste ponto, encontra-se um dos grandes paradoxos. O homem é mecanicamente insatisfeito com sua real situação e naturalmente contrário às rupturas que as mudanças exigem.

Por não saber solucionar tanto caos dentro de si, só é capaz de perceber a grandeza das separações olhando pra trás, depois que tudo passou. Então entende que todo fim é o começo de um novo fim. E todo começo vem do fim de outro começo.

É assim a vida e o seu formato cíclico.

O excremento da mídia televisiva gratuita

Por Gerson Quirino em 03/08/2010 às 15:45

Depois de quase três anos trabalhando ininterruptamente, tirei alguns dias de férias. Ainda resolvendo assuntos pessoais, tive que permanecer mais tempo em casa. Nesse período, uma rápida constatação me veio de forma irrefutável: a decadência da TV aberta no Brasil é uma realidade aterrorizante.

Eu já sabia que as coisas não andavam bem, mas a rotina não me permitia enxergar isso de forma mais eficiente. Eu que imaginava que o auge do mau gosto da TV era no domingo à tarde com Faustão e Cia, desconhecia os tantos outros programas de iguais ou piores enredos e apresentadores que nada têm a contribuir a quem os assiste.

A maior parte disso é conseqüência da alienação do povo brasileiro. Analisar de forma pontual a relação das grandes redes de televisão aberta com os milhões de telespectadores é cair no mesmo erro dos políticos que prometem o fim de um mal social sem analisar o sistema que o desencadeia.

O que está errado com o Brasil é a educação. Esse problema é a causa de todos os demais. Educação produz cidadãos mais conscientes, exigentes de seus direito, que votam em políticos honestos, que investem na saúde e segurança pública, que diminui o grau de marginalização, que aumenta a qualidade de vida e o desenvolvimento social, que minimizam (quase anulam) a alienação do povo. Esse ciclo acabaria com esses programas idiotas na medida em que  deixariam de ser rentáveis a quem os produz.

Num discurso menos político, alguém pode me explicar como Faustão há tanto tempo tem quase a tarde inteira do domingo só pra ele? Como ele pode ser um dos apresentadores que mais ganha na TV brasileira fazendo um programa inútil como o dele? Como, apesar de tudo isso, ele ainda consegue ser arrogante, prepotente e boçal, ao vivo, pra todo o país? Há algo errado com quem assiste Faustão numa boa, achando ser um ótimo programa de domingo. Digo o mesmo dos seus demais concorrentes como Raul Gil e Gugu.

A produção televisiva é reflexo da demanda exigida pelo povo.

Durante a semana, uma figura específica me chama muito a atenção. O Sr. José Luiz Datena. Eu relutei em falar sobre este, porque acho que não merece nem as palavras escritas por um anônimo como eu. Se existe alguém mais ignorante do que esta figura, eu ainda não encontrei, aceito sugestões. Com um programa policial de baixíssima qualidade, Datena discorre xingamentos a torto e a direito aos atores de um quadro social que está de ponta cabeça. É muito fácil analisar um problema focando apenas o ponto final dele. O Sr. Dantena esquece que estes mesmos marginalizados são frutos de um sistema excludente, de uma má gestão governamental e de preconceitos que ganham força a cada palavra proferida por este senhor. De certa forma, a violência também é culpa do Datena, que nunca saberá disso. A última novidade é que Sociedade de Ateus do Brasil move um processo contra o apresentador por sempre associar o que há de mais sombrio nos atos humanos como sendo praticados por aqueles que não acreditam em Deus. Esta associação distorcida é preconceituosa e falha, como todo o seu programa. A descrença em Deus pode ser apenas uma opção racional e científica (já que a fé não caminha por estes campos), e isso jamais justificaria tantos atos torpes da humanidade (inclusive por aqueles que acreditam em Deus). Datena é o que há de pior, no pior da TV aberta.

Eu perderia muito tempo discorrendo sobre o Zorra Total, Turma do Didi, Silvio Santos, Domingo Legal e outros inúmeros decadentes, mas creio que o sentido do que queria explicar aqui já foi alcançado.

Hoje, TV paga já deixou de ser artigo de luxo. Eu diria até que é uma necessidade à evolução natural dessa espécie que se denomina sapiens. Se não pode pagar por uma, siga aquele velho conselho, desligue a TV e vá ler um livro.

É bom saber mudar de tom

Por Gerson Quirino em 02/08/2010 às 14:29

E se um dia você se perdesse de si e acontecesse de não mais lembrar o antigo mesmo rosto ao olhar-se no espelho. Se o desejo lhe tirasse o ar bem no meio do caminho, quão baixinho escutaria suas canções?

E se um dia você esquecesse a hora e o agora não tivesse a mesma pressa. E se essa inércia de ser sempre o mesmo tivesse um fim como um começo anunciando o que há por vir. Ainda assim deixaria de sorrir?

E se a certeza estivesse na sua mão, se não houvesse um não, se não houvesse se. E se a preocupação não viesse com o cinza desse dia, até quando esperaria pra mostrar a própria luz?

E se em mim houvesse o teu fim, já não bastava escrever ou jogar fora tantas palavras de mudança. Confortaria a idéia do se, que deixa no mesmo lugar a ordem chata de tudo o que é não. Anda, me dá sua mão, talvez com o mundo de cabeça pra baixo o espelho possa refletir outra imagem sua, porque já não haverá um se, um não, um nada.

p.s: à menina sorridente, que inspira tanta gente.

Dia do Amigo

Por Gerson Quirino em 20/07/2010 às 8:47

Ela tanto, tantas vezes…

Por Gerson Quirino em 14/07/2010 às 11:46

Era engraçado encontrá-la sempre com pessoas diferentes. Como se ela tivesse milhões de amigos e nenhum ao mesmo tempo. Ela não se pertencia, por isso não poderia dar-se nunca. Encontrei-a várias vezes perdida, com pernas cruzadas e segurando a mão de outro que não eu. E vi várias fotos iguais, com o seu mesmo sorriso e ao seu lado um sorriso diferente, coadjuvante. Como se ela tivesse milhões de amores e nenhum ao mesmo tempo.

Ela era sempre noite porque temia a luz, embora nunca tivesse revelado. Embora mentisse gostar dos pores-do-sol. Não fosse o cigarro, eu não reconheceria sua face já tão danificada por sim mesma, por uma busca que ela acreditava ser pela felicidade. As unhas que seguraram por várias noites tantas idealizações, agora eram pintadas de vermelho como seu sangue, que já nem trazia mais tanta convicção. Refazia-se com a mesma velocidade de sempre, ou, pelo menos, acreditava nisso com a mesma brevidade.

Era engraçado encontrá-la com pernas estranhas, em lugares diferentes, com pessoas cruzadas, esperando o amor lhe dar notícias que desconhecia. Esperando ser outra e ao mesmo tempo querendo a metamorfose de quem segurava a sua mão, acreditando fazê-la sentir-se segura.  Encontrei-a, mas já não era a mesma há muito. Ela é sempre várias e, talvez por isso, ao mesmo tempo, não consegue ser ninguém.

Aumenta que é Rock and Roll

Por Gerson Quirino em 13/07/2010 às 17:02

Hoje é o dia mundial do Rock e o Mais Que Nada não deixaria esse espaço sem a devida menção ao ritmo que mudou o mundo.

Muita coisa se passou desde os primeiros acordes e solos virtuosos, provavelmente feitos pela primeira vez em uma garagem qualquer. Seu berço, claro, foi os Estados Unidos da América, terra onde fervia a modernidade e qualquer movimentação artística da época. Era início dos anos 50 e o quadro social era de grande alívio. Aos poucos, os cidadãos esqueciam a era Truman e, com ela, as grandes guerras que puseram em sério risco os ideais do sonho americano. O movimento hippie nem sonhava em dar os primeiros passos, mas seu futuro lema já estava incutido na mentalidade pós-guerra dos jovens que pregavam a paz e o amor e reinventavam a sociedade. Hollywood ditava a moda e o jazz foi lentamente substituído dos bailes de formatura por um som novo, que misturava os melhores estilos americanos às batidas e swing de ritmos da África. Nascia aí o Rock and Roll.

Diferente do que a Igreja sempre pregou, e pra infelicidade de alguns fãs menos ortodoxos, o Diabo não é o pai do rock. Os dois maiores postulantes a este grau de parentesco são Jackie Brenston e Chuck Berry. Jackie, por ter feito a primeira gravação oficial de uma música considerada neste estilo. Chuck, por ter reproduzido em sua guitarra o que viria ser o maior clássico do Rock and Roll até os dias de hoje.

Jackie Brenston, 1951, com Rocket 88. Nota-se a composição de acordes e arranjos que se tornariam característicos nos primeiros passos do Rock:

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Chuck Berry, 1955, com Johnny Be Good. Como diria Marty McFly, em “De volta para o Futuro”,  “esta é uma música antiga, bem… antiga no lugar de onde eu venho. Talvez vocês não estejam preparados pra isso, mas os seus filhos vão adorar…”

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Elvis Presley consolidou o ritmo ao gravar inúmeros álbuns e transformou o mundo sem ter feito um único show fora dos Estados Unidos. O tempo passou e o rock, que desde o início sonhava alto, não se contentou em ser apenas um estilo musical. Tornou-se a voz dos jovens num grito por liberdade e combate a qualquer tipo de adversidade. Estudiosos afirmam que antes do seu nascimento, a música era dividida em nacionalidades, regiões, raças, instrumentação, religião e técnicas vocais. O rock veio pra unificar a linguagem da música, como uma torre de babel às avessas, não em mesmos estilos, mas em acessibilidade a quem quisesse ouvi-la. O rock era de todos, tocava em qualquer rádio e era feito em qualquer garagem. Justamente por isso, tomou proporções enormes com influências nos principais pólos de cultura do mundo, cresceu tanto que se permitiu fragmentar em vários gêneros dentro da mesma distorção em over drive.

Há 25 anos, 1985, foi criado o Live AID, evento que contou com os maiores nomes do rock mundial em prol do combate à fome na Etiópia, desde então, o dia 13 de junho é considerado o dia mundial do Rock and Roll. Pelas contas, esse simpático rebelde está completando 60 anos de idade. O velhinho ainda mostra vigor impressionante e é de longe o ritmo mais tocado no planeta. Durante essa exagenária jornada, teve filhos que de fato não mereceram sua paternidade, mas o legado até os dias de hoje mostra todo o seu potencial de renovação e a confirmação de que essa história só está no começo.

Os deixo com o Top 50 dos maiores clássicos do Rock and Roll:

Pablo Neruda

Por Gerson Quirino em 12/07/2010 às 9:12

Se estivesse vivo, Ricardo Basoalto completaria hoje 106 anos e provavelmente estaria vivendo na Espanha, apesar de participar ativamente da vida política do Chile, seu país de origem. Ricardo foi um dos maiores poetas que o mundo conheceu, ganhou o prêmio Nobel de literatura em 1971por uma poesia que foi capaz de trazer vida aos leitores. Tão logo adotou o codinome Pablo Neruda, escreveu um dos sonetos mais belos da produção poética mundial. Retirado da obra Cem Sonetos de Amor, reproduzo aqui o Poema XLIV.

Poema XLIV

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Homo Solitarius

Por Gerson Quirino em 08/07/2010 às 10:25

Dessa vez, era uma heroína. Uma mulher nem velha, nem nova, num programa de novos talentos. Ela queria cantar, mas duvidaram do seu potencial pela aparência que apresentava. Como todos desconfiam, e já era de imaginar, a mulher soltou uma belíssima voz, emocionando toda a platéia e os jurados. O vídeo é legal, realmente emociona, mas depois disso, torná-la uma celebridade universal é, digamos, no mínimo, uma carência profunda no que diz respeito às relações humanas. Antes desta mulher, tinha sido outro carinha, antes dele, um filme besta, um político corrupto e um Best-seller da moda, que de best não tem nada.

O ritmo da vida contemporânea enfiou em nós um sentimento cada vez mais rígido no campo dos sentimentos, forçando-nos ter menos atenção aos pequenos detalhes da vida. A consequência disto é a rigidez que, por estar tanto tempo longe de verdadeiras emoções, se desmonta frente a qualquer discurso populista com uma música ao fundo. Nasce, portanto, mediante a demanda emocional dos novos carentes, que em breve serão absolutos, os heróis dos 5 minutos. Aqueles que salvam sua vida, te enchem os olhos de lágrimas e o coração de esperança durante 5 minutos. E só. Depois volta tudo ao normal.

No meu tempo, os heróis eram mais duradouros e as histórias terminavam com um final feliz pra sempre.

As decepções e o caos são parte fundamental dessa doação psicológica. Os mais fáceis de enganar são geralmente os mais necessitados, que são os que detêm a maior esperança na mudança da realidade. Paralelo a isso, há a indústria da esperança, que move bilhões por ano com livros de auto-ajuda e coisas já citadas aqui. Vender a mentira para quem precisa de verdade é também a forma mais fácil e cruel da vileza.

O fato é que os “bom-dia” estão cada vez mais raros e é fácil identificar os calos alheios, tantos olhos opacos. As pessoas estão esquecendo como sorrir.

O homem que sempre precisou de heróis para se espelhar e saber guiar suas vidas, hoje os busca como solucionador de uma parte de seus traumas, medos e desconfortos. E há tanto disso em cada um, que tem de haver também muitos filmes, políticos e livros, a cada minuto, para compensar essa mácula criada por nós mesmos. Este homem está cada vez mais só – homo solitarius – e essa carência demonstra o lado mais exigente de todos os espaços vazios dentro de nós, que é, ao menos, muito bem disfarçada em apertos de mãos e sorrisos plastificados em elevadores.

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